Todo mundo tem uma história interessante para contar. Seja ela vivida com intensidade ou recebida através das contagiantes palavras de quem a viveu.
Nesse sentido, o que difere as histórias que uma pessoa comum pode contar das histórias narradas por um escritor? A resposta pode ser mais simples do que parece: a diferença está na maneira de contá-las.
O escritor norte-americano Paul Auster tinha consciência de que toda história vale a pena quando aceitou realizar um programa na rádio NPR (National Public Radio) em 1999. Pediu aos ouvintes que enviassem histórias para serem lidas por ele: ''Essas histórias tinham de ser verdadeiras e precisavam ser curtas, mas não haveria restrição quanto a tema ou estilo. O que me interessava mais, expliquei, eram histórias que desafiassem nossas expectativas em relação ao mundo, casos que revelassem as forças misteriosas e incognoscíveis que atuam em nossas vidas, em nossas histórias de família, e nossas mentes e corpos, em nossas almas. Em outras palavras, histórias verdadeiras que parecessem de ficção.''
O programa recebeu mais de 4 mil cartas e permaneceu no ar durante um ano. A experiência deu origem ao livro ''Achei Que Meu Pai Fosse Deus'' organizado por Paul Auster. Lançada no Brasil pela Editora Companhia das Letras, a obra reúne uma seleção de 180 histórias divididas em blocos de assuntos (amor, morte, família, animais, pessoas estranhas, guerra, sonhos, etc.).
Grande parte dos relatos é calcada nas forças do acaso e nas tramas da coincidência. Aquilo que o psicólogo Carl Gustav Jung (1875 - 1961) abordou sob o conceito de ''sincronicidade''. Fatos e circunstâncias que estabelecem alguma conexão ou outros fatos e circunstâncias aparentemente distantes.
Na visão de Auster, a obra seria um ''arquivo de fatos'' íntimos e particulares, um ''museu da realidade americana.'' E quanto mais as pessoas se emprenham em compreender esses fatos, mais esquivo eles se tornam: ''Se você não tem certeza sobre as coisas, se sua mente ainda não está suficientemente aberta para questionar o que vê, você tende a ver o mundo com grande cuidado, e dessa observação atenta vem a possibilidade de ver algo que ninguém viu antes. Você tem que estar disposto a admitir que não possui todas as respostas. Do contrário, jamais terá alguma coisa importante para dizer.''
Não apresentar todas as respostas é justamente o que torna uma história interessante. Seja nascida das mãos de um mecânico ou de um romancista. ''Achei Que Meu Pai Fosse Deus'' quebra essa distinção e revela o tênue limite entre realidade e ficção.

Serviço:
- ''Achei Que Meu Pai Fosse Deus - E Outras Histórias Verdadeiras da Vida Americana'', organização e introdução de Paul Auster, Editora Companhia das Letras, 396 páginas, R$ 49,00.

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