LEITURA - Mar de lágrimas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de março de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Solidão. Dor. Abandono. Erro. Tudo junto e misturado dentro de cinco mulheres. Tragédia para oceanos de lágrimas, lamúrias, suspiros, corações partidos e unhas quebradas.
Toda tragédia possível e imaginável recheia ''Tanta Vida'', primeiro romance do escritor espanhol Alejandro Palomas publicado no Brasil. Lançada pela editora Record, a obra possui todos os ingredientes de um melodrama piegas e sentimental.
Um romance que tinha tudo para seguir carreira como novelão patrocinado por fabricantes de lenços. Tinha. Isso se não fosse a capacidade do autor em inserir o cômico nesse mar de lágrimas.
''Tanta Vida'' narra a história de cinco mulheres, de três gerações, marcadas por erros, abandonos, perdas e solidão. Mencía, aos noventa anos de idade, é mãe de Lía e Flavia. A elas se juntam as netas Beatriz e Inés, filhas de Lía.
As cinco se encontram num momento em que estão todas vulneráveis. Mencía está com o braço quebrado, vítima de um empurrão da filha Flavia. Lía se recupera da morte da filha mais velha, Helena, vítima de um acidente marítimo. Flávia está de perna quebrada prestes a se separar do marido. A neta Beatriz está deprimida após ser abandonado pelo marido que se apaixonou por outro homem. A outra neta, Inés, abandonou marido e filho após se apaixonar por uma colega de trabalho.
Nesse encontro, através de conversas, as verdades mais ocultas e guardadas ao longo do tempo são reveladas. Elas saem da gaveta através de Mencía, a personagem que salva o romance. Desbocada e cruel, a velhinha fala aquilo que lhe vem à cabeça entre uma escorregada e outra da dentadura. Dotada de um humor ácido, assume o papel da única que, por estar próxima da morte, pode dizer tudo e todas as verdades que ninguém tem coragem de escancarar.
Mencía é capaz das piadas mais ferinas nos momentos mais solenes. Simbolicamente assume a clássica figura do bobo da corte - o único que possui a coragem de dizer a verdade porque não pode ser levado a sério. A idade avançada lhe concede o direito de chutar o balde em qualquer situação. E pela experiência acumulada é capaz de enxergar como a vida é desperdiçada com mesquinharias e hipocrisias.
O pacote de dramas não é pequeno. Tem mais. Na sequência o filho de Inés, de seis anos de idade, está no hospital com os dias contados. Novamente as cinco mulheres se reúnem para chorar suas dores, erros e abandonos. Surge então a percepção de que o que sobrou foi a capacidade de auxílio mútuo no mar de lágrimas. E o pacote não termina aí. Tem mais.
Nascido em 1967, em Barcelona, Alejandro Palomas é formado em Filologia. Tradutor da língua inglesa, verteu para o espanhol várias obras de Oscar Wilde, Jack London e Gertrude Stein. Considerado um dos nomes de destaque da nova literatura espanhola, possui oito livros publicados. Uma das características de seus livros é priorizar o lado sentimental da narrativa, não o lado intelectual. Outra característica está na construção basicamente de personagens femininos em suas obras.
''Tanta Vida'', que será adaptado para o cinema por Ángeles Gonzáles Sinde, mostra três gerações de mulheres num processo de superação. Parte da ideia de que, a partir da confissão dos erros, todos os problemas estão resolvidos. Figuras que, apesar de afirmarem que são os homens que estragam a vida das mulheres, em algum lugar da consciência sabem que são elas mesmas que danificam suas próprias vidas.
A figura desbocada de Mencía, entre uma troca e outra de fralda geriátrica, entre uma provocação e outra, é capaz de admitir coisas como: ''Nós, os velhos, retornamos uma e outra vez ao momento de nossa vida em que fomos realmente felizes e ali nos refugiamos porque estamos cansados de procurar algo melhor.''
Entreolhamo-nos. Mães e filhas, irmã e irmã, tia e sobrinhas, netas e avó. Sozinhas. Estranha palavra. Tão circular, tão fechada em curva perigosa e com má visão. Letras que brincamos de dividir entre nós. Ao acaso. O s incrustado nos ossos sem músculo de Inés, fraqueado por seus sonhos e escassa realidade. O o para a infinita coragem de Mencía e suas cartas sempre marcadas. Um z para que Lía desabe finalmente, nos arrastando com a vida que lhe resta. Um a para a Bea e seus falsos desamparos, e um outro s para que eu serpenteie entre todos os plurais que me confortam e consiga aprender de uma vez por todas a imaginar no singular, a imaginar-me inteira. Para que consiga parar de sonhar com os que já não estão. Para que consiga começar a sonhar também acordada.
(Fragmento de Tanta Vida
de Alejandro Palomas)
SERVIÇO
Tanta Vida
Autor - Alejandro Palomas
Editora - Record
Tradução - Maria A. Brum Lemos
Páginas - 252
4 Quanto - R$ 37,90


