LEITURA - Mais do mesmo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Parece ser uma sensação presente na maioria dos leitores. Basta começar a ler um novo livro de Dalton Trevisan que logo vem a sensação: ''parece que já li esse livro antes''.
No novo livro do escritor curitibano, ''O Anão e a Ninfeta'', que acaba de ser lançado pela editora Record, a sensação reaparece. Um pouco diferente. Agora vem a sensação de: ''parece que já li esse livro antes mais de uma vez''.
Dalton Trevisan, aos 86 anos de idade, é um escritor escrevendo em círculos. Num mundo viciado em novidades por minutos, ele não arreda o pé de seu quintal de sarcasmo. Não se levanta de seu sofá de mordacidades. Não dá um passo além da esquina de suas perversões cotidianas.
Reescrevendo o mesmo livro há anos e anos, Dalton Trevisan se tornou o escritor mais previsível da literatura brasileira. Sua fidelidade ao estilo que criou é monumental. Mais sólido do que aço. Sua obsessão é eterna. Variações sobre um mesmo tema. Variações das variações de um mesmo assunto. Possibilidades de variações das variações de uma mesma história.
Vale lembrar que existe uma enorme diferença entre uma pessoa assistir dez vezes o mesmo filme e um cineasta fazer dez vezes o mesmo filme. Uma diferença sustentada pelos tentáculos da loucura.
Dalton Trevisan leva sua obsessão até as portas do inferno com sua clássica galeria de perversões amorosas, tarados de olhos doces, de auroras nos seios das meninas, viúvas alegres, vingança com pão e manteiga, velhos assanhados, suicidas despeitados, assassinos emotivos e todo tipo de miséria humana inimaginável.
Com tantas variações sobre o mesmo tema, o que mais se destaca na literatura de Trevisan é a linguagem. Criador de linguagem única na literatura brasileira, depurou a forma narrativa à essência máxima, ao limite da exatidão. Talvez hoje, ele não seja mais lido por aquilo que diz, mas como diz. A previsibilidade de seus minicontos confere maior sentido à sua linguagem. A forma passou a dizer mais do que o conteúdo.
Um exemplo de enredo das histórias presentes em ''O Anão e a Ninfeta'': o sujeito está apaixonado pela sua companheira de mocó. O amor permanece lindo até o dia em que a mulher começa a arrastar a asa para outro homem. Numa bela noite de cachaça e crack, ela se recusa a fazer sexo com o companheiro. Possesso, o sujeito crava uma faca no peito da amada. Para completar o serviço, arranca o coração da mulher. Na sequência, vai até o barraco do antigo marido da vítima. Lá, os dois, fritam o coração em fatias. E comem, feito aperitivo, enquanto matam uma garrafa de pinga.
Um tipo de enredo presente em outras quinhentas histórias de Dalton Trevisan. O autor só insere, nessa nova variação, um coração frito, ''no óleo do bom / bem torradinho''. O que se destaca, mais uma vez, é a narrativa do conto, a linguagem desenvolvida. Esse continua sendo o grande mérito do escritor.
A única novidade de ''O Anão e a Ninfeta'' está curiosamente no retorno do escritor à forma de contos mais longos. No livro há, surpreendentemente, um conto de 20 páginas. Outro de 17. E ainda outro de 15. Algo inexistente em seus livros anteriores, constituídos basicamente de miniconto de poucas linhas, onde o mínimo era tudo.
Parece ser uma sensação que permanece.
Serviço:
O Anão e a Ninfeta
Autor - Dalton Trevisan
Editora - Record
Páginas - 160
Quanto - R$ 34,90
Fragmento:
No café somos apenas elas e eu, cabeça baixa, fingindo ler.
Discutem na mesa próxima, vozes cada vez mais exaltadas.
A morena, corruíra nanica, no ataque:
- Só li o que estava escrito. Como pôde? E logo com quem!
A loira, linda e culpada:
- Não houve nada, amor. Já disse. O que é um olhar? Um sorriso? Juro por tudo que é sagrado.
- Acha que eu acredito?
- Seja tolinha, meu bem. Sabe que é só você. Sempre foi você.
A morena ainda incrédula:
- Essa a pior traição.
- De novo, poxa. E quanto tempo ainda vai falar? Um mês, dois?
Com um profundo asco.
- Um maldito homem!
- Ora, que bobagem. O que aconteceu querida? Nadinha de nada.
- Ah, é? Bem a minha mãe...
Não sei o que... O final da frase se extinguiu num queixume.
A loira toda se melindra.
- Essa, não. Tem dó. Agora até a própria mãezinha!
No repente de fúria, a morena se ergue e derruba longe a cadeira. Ao sair, o salto duro e forte abala o soalho.
A loira, na minha frente, sem ação. Alta, pálida de susto, a xícara ainda no ar. Se livra dela e derrama o café na toalha.
Presto se vai, aflita, atrás da outra. Suplicante, em lágrimas:
- Espere anjo. Não me deixe. Juro. Nunca mais eu... É isso. O velho amor. Não escolhe hora nem lugar. Muito menos pessoa.
(Conto ''No Café'', que integra ''O Anão e a Ninfeta'', de Dalton Trevisan)


