LEITURA - Liturgia da escrita
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de dezembro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Geralmente os escritores são tidos como bons sujeitos. Alguma coisa acima de média no caldeirão das pessoas de boas intenções. Mas tudo parece ser um grande engano. ''Se escritores fossem boas pessoas, exerceriam uma atividade decente na sociedade humana, algo que de fato fosse solicitado pela vizinhança da espécie. Seriam pessoas normais, capazes de convivência e de todos esses valores que eles cantam de dedo em riste, incapazes de aplicar na própria vida.''
Esse desabafo provocativo está nas primeiras páginas do novo livro de Cristovão Tezza, ''Beatriz'', que acaba de ser lançado pela editora Record. A primeira frase do volume que reúne sete contos é exatamente essa: ''Escritores não são pessoas boas''. Ela sai da boca de um escritor que planeja roubar a amada de seu grande mestre, aquele que o ajudou a ser tornar um famoso homem das letras.
Essa traição competitiva está na primeira história de ''Beatriz'', segundo livro de contos de Cristovão Tezza. O primeiro, ''Cidade Inventada'', foi publicado de maneira alternativa em 1980 e até hoje o autor morre de vergonha do resultado. E confessa que toda vez que encontra um volume num sebo, compra-o imediatamente para que ninguém coloque os olhos nele.
Ao longo de 30 anos o escritor curitibano se dedicou a escrever somente romances. Nesse retorno às narrativas curtas, fez questão de não criar textos independentes. Há sempre um elemento de ligação entre eles: a personagem Beatriz que dá título ao livro. Em alguns contos ela aparece como protagonista, em outros surge como elemento secundário.
Beatriz é uma solitária revisora de textos que acaba de sair de um casamento fracassado e precisa refazer a vida. Após colocar um anúncio no jornal, começa a receber todo tipo de trabalho. Cada novo trabalho traz situações inesperadas que se transformam em revelações inusitadas. Curiosamente Beatriz é uma personagem que aparece no final do último romance de Cristovão Tezza, ''Um Erro Emocional'', lançado em 2010.
Os contos de ''Beatriz'' invariavelmente percorrem o mundo das palavras: o ato da leitura, a prática da escrita, o mundo dos livros, a origem das narrativas, a constelação das palavras, etc. As histórias gravitam ou são gravitadas por esse universo. Ao mesmo tempo trata a escrita como liturgia, igualmente procura destronar essa liturgia.
Em ''Beatriz e a Velha Senhora'', a personagem recebe o telefonema de uma pessoa que viu seu anúncio no jornal. Quando chega ao local indicado, encontra uma rica senhora que deseja apenas que ela redija uma carta ditada. Aos poucos Beatriz percebe que na realidade não se trata de uma carta, mas da confissão de um crime. Uma típica história do século 19 onde o escriba recebe a confissão como ouvinte, não como juiz ou padre.
Em ''Aula de Reforço'' Beatriz é contratada para ministrar aulas de redação ao filho de metódica mãe que apresenta o garoto com deficiência educacional. Logo na primeira aula Beatriz percebe que o menino não é nada daquilo que a mãe apresenta. E recebe a confissão do filho de que a mãe não bate bem da cabeça, mas ele precisa continuar com as aulas.
Em ''Um Dia Ruim'' Beatriz parte para uma região isolada da cidade para apanhar um livro para revisar. Quando começa a negociar o trabalho com o autor, o sujeito tem um ataque e morre do coração. Ela fica presa numa espécie de armadilha: numa casa isolada, cercada de cães ferozes e com um morto no sofá.
São histórias onde a arte da palavra, aparentemente superior, está sempre atrelada ao lado inferior do ser humano. E que o ofício da construção narrativa e da leitura dessa mesma narrativa, é tão humano quanto qualquer outro ofício. Bom e mal. Louco e lúcido. Criador e destruidor.
Serviço:
- Beatriz
Autor - Cristovão Tezza
Editora - Record
Páginas - 144
Quanto - R$ 34,90
Fragmento:
- Escritores não são pessoas boas. O que me intriga é que milhares de leitores que ainda restam no mundo, como vocês, essas almas bem-intencionadas aí na plateia me ouvindo, não se apercebam dessa verdade simples e universal. Não satisfeitos em apenas ler os livros que escrevemos, querem também nos ouvir falar, fazem filas atrás de autógrafos, e alguns nos escutam com a adoração que se tem aos santos e aos sábios. Felizes, sorridentes, suportam palestras e mesas-redondas em que os escritores costumam desfiar aquele rosário de besteiras e mentiras, sempre as mesmas, teorias estapafúrdias que inventaram de ressaca 15 minutos antes de sentar à mesa ou então que arrastam pela vida afora como uma tábua de mandamentos que não tem relação com o que escrevem, piadas sem graça, patéticos ataques de narcisos ou simplesmente babaquices sobre o ''método de escrever'', o valor da ''inspiração'', a importância da leitura no mundo moderno - daqui a pouco sai alguma coisa do tipo ''como fazer amigos escrevendo livros''.
(Fragmento do conto ''Beatriz e o Escritor'' que integra ''Beatriz'' de Cristovão Tezza)


