LEITURA - Letras de uma terra vermelha
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de outubro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Até alguns dias atrás, quem desejasse saber um pouco sobre a literatura produzida em Londrina ao longo de seus 70 anos, não encontraria nenhum livro sobre o assunto. Nenhuma pesquisa acadêmica, nenhum trabalho autodidata. A ''história da literatura londrinense'' simplesmente estava esquecida num canto empoeirado, desprovida de qualquer atenção.
Para suprir essa lacuna, o escritor londrinense Carlos Francovig resolveu tirar a poeira do passado e traçar um painel da história da literatura produzida na cidade. Francovig delimitou sua pesquisa nos primeiros 50 anos, de 1934, ano da criação do Município de Londrina, até 1984, ano das comemorações do cinquentenário da cidade. Dessa maneira, a produção dos últimos 20 anos permaneceu de fora do trabalho.
O resultado desse trabalho pioneiro está em ''Ouro Verde e Café Quente'', livro que acaba de ser lançado pela Editora Atrito Art dentro da ''Coleção Londrina''. A informação mais curiosa da obra aparece logo nas primeiras páginas: a primeira obra literária produzida na cidade teria sido uma marcha carnavalesca.
Zé Leite, um operário semi-alfabetizado que nas horas vagas atuava como poeta popular, foi o criador da letra da marchinha do carnaval do ano de 1934. Hino oficial do ''bloco verde-amarelo'', que atuava no Clube Redondo, a canção ganhou a simpatia de toda a cidade com o seguinte refrão: ''Londrina, Londrina do meu coração, / Aguenta firme oh rapaziada / Pegue a namorada e entra no cordão.''
Na observação de Francovig, a maior dificuldade do trabalho foi encontrar publicações do passado. Bibliotecas e arquivos institucionais guardam pouca coisa em seus acervos e qualquer pesquisa precisa contar com acervos particulares. A partir do relato de ''Ouro Verde e Café Quente'', fica evidente que uma parte significativa da literatura londrinense não está registrada em livros, mas em jornais, revistas, folhetos e pequenas edições limitadas.
''Ouro Verde e Café Quente'' defende a tese de que a vocação literária da cidade está praticamente fundamentada no gênero poesia. Os poetas aparecem em maior número nas mais variadas épocas. Outros gêneros como crônica, conto, romance e narrativa são abordados num plano secundário. A prosa ocupa um papel minoritário, embora autores como Edison Machio, Marinósio Filho e Domingos Pellegrini sejam comentados.
No caso de Domingos Pellegrini, importante prosador da literatura brasileira contemporânea, a abordagem realizada por Francovig é controvertida. Opta em abordar apenas a produção poética de Pellegrini, basicamente de seus primeiros versos publicados em folhetos mimeografados na década de 60. Deixa de lado os contos de Pellegrini, que após o lançamento de seus dois primeiros livros, ''Homem Vermelho'' (1977), e ''Sete Pragas'' (1979), levou a produção local a uma repercussão nacional. Algumas narrativas estavam, inclusive, ambientadas no Norte do Paraná, algo que, posteriormente, seria vinculado a uma espécie de ''regionalismo''.
Em ''Ouro Verde e Café Quente'', o interesse de Carlos Francovig não é realizar um trabalho historiográfico propriamente dito, mas realizar um passeio como cronista pela literatura produzida entre 1934 e 1984. E o grande mérito da obra está em não retratar apenas a ''literatura oficial'', mas aquela se propaga pelas ruas com vitalidade e ousadia. Aquela que nasce com sede de transformações.
As lacunas presentes e evidentes se revelam através da ausência de autores determinantes e obras significativas dentro do período histórico definido. O interesse de Francovig não está em procurar traçar uma linha condutiva dos caminhos literários criados em Londrina ao logo dos anos, nem realizar uma leitura interpretativa dessa linha imaginária. Sua opção é apresentar fatos, episódios, autores e obras, como um cronista vagando por algumas ruas da história literária da cidade.
Nesse sentido, ''Ouro Verde e Café Quente'' é o pontapé inicial para que a trajetória da literatura local tenha uma história narrada. Ou várias histórias. O trabalho de Carlos Francovig é a primeira tentativa para que essas histórias deixem a poeira de lado e comecem a vagar pelas ruas.
Serviço:
- Livro ''Ouro Verde e Café Quente - 50 anos de Literatura em Londrina'', de Carlos Francovig. Editora Atrito/Secretaria Municipal da Cultura/Sercomtel, 152 páginas, Coleção Londrina, R$ 20,00.
Em 1959 o Edison Maschio provocou o maior frisson em Londrina. A bomba explodiu em pleno cérebro nervoso da cidade. Publicou seu romance fictício Escândalos da Província. Uma sátira social que procurou apenas caracterizar fatos da sociedade. Mas, para um lugar com os padrões da época, o livro foi censurado, apreendido e queimado. Em apenas uma semana vendeu nada mais nada menos que 2.000 exemplares. Mas o livro teve que ser escondido, exportado. O próprio Maschio teve que sair da cidade, pois corria sérias ameaças físicas. Sem segurança e por atingir todos os setores da sociedade houve apenas uma única edição custeada pelo próprio autor.
Outra curiosidade a respeito do livro de Maschio era a arrojada capa. Desolada chega à cidade. Pequena Londres, uma pessoa qualquer e se depara já na entrada com um insólito outdoor: Igual a Você Aqui Temos Dez Mil. Volte.
(Fragmento de Ouro Verde e Café Quente, de Carlos Francovig)


