LEITURA - Leite e lágrimas
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de março de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Entre as formas de amor que povoam o mundo, o amor de mãe ocupa uma categoria superior na escala dos sentimentos. Incondicional, é sempre tratado como força universal inabalável.
Em seu novo romance, ''O Filho da Mãe'', o escritor carioca Bernardo Carvalho coloca esse amor incontestável numa tremenda crise. Narra a história de duas mulheres que não conseguem honrar esse amor de acordo com o imaginário incondicional. São mulheres que, por motivos diversos, abriram mão de seus filhos e provocaram um tempestuoso e silencioso deserto em seus corações.
''O Filho da Mãe'' nasceu da experiência vivida por Bernardo Carvalho em São Petersburgo, cidade russa que visitou dentro do projeto ''Amores Expressos'' em 2007. Ambientado na cidade, o romance tem como pano de fundo a guerra da Tchetchênia ocorrida em 2003. Apresenta a trajetória de duas mães russas que abandonaram seus filhos e carregam o peso da opção ao longo dos anos.
Num primeiro momento, as duas que violaram o amor incondicional se apresentam como protagonista de ''O Filho da Mãe''. Num segundo momento, são os filhos desamparados que se tornam os reais protagonistas do romance. Se por um lado as mães vivem histórias paralelas, sem nenhuma espécie de contato, com os filhos acontece o contrário. Pelas mãos do destino, eles vivem uma história próxima e acolhedora.
Além de uma história sobre o amor de mãe, ''O Filho da Mãe'' é, paralelamente, uma história de amor homossexual entre dois jovens. Tudo aquilo que os filhos não encontram no calor afetivo das mães, encontram um na companhia do outro, um nos braços do outro. Um enredo desse tipo poderia estar a um passo do sentimentalismo piegas, mas Bernardo Carvalho consegue se distanciar dessa possibilidade com uma certa elegância.
Com uma narrativa não linear, repleta de caminhos distintos e vozes diferentes, ''O Filho da Mãe'' é o primeiro romance do autor criado na terceira pessoa. Em sua estrutura, a narrativa abre várias portas para apontar um punhado de corredores, trilhos e atalhos. Esses corredores estão predestinados a chegar num único espaço, numa única convergência. E as portas abertas nunca fechadas.
Uma das surpresas da obra, considerando outros romances de Bernardo Carvalho, está na velocidade conferida à narrativa pela agilidade das ações. ''O Filho da Mãe'' traz uma literatura pautada pela agilidade de acontecimentos, pela velocidade da sucessão de fatos. A própria disposição em não fechar as portas sucessivamente abertas auxilia essa agilidade. Por outro lado, fica claro o interesse do narrador em fechar apenas as portas essencialmente necessárias para a condução da história.
Na obra, os personagens, mães ou filhos, estão deslocados no mundo em que estão inseridos. Seja pela violência, seja pelas opções que realizam, vivem imersos em estados de fobia. O amor surge justamente como elemento reparador, algo que as mães erraram e os jovens arriscam apesar dos iminentes perigos. Não há como negar que se trata do romance mais emotivo de Carvalho.
Autor de romances como ''Nove Noites'' (2002), ''Mongólia'' (2003) e ''O Sol se Põe em São Paulo'' (2007), Bernardo de Carvalho é, curiosamente, mais lido na França do que no Brasil. As tiragens em língua francesa de seus romances são bem superiores às edições brasileiras. ''O Filho da Mãe'', quem sabe, por sua carga emocional e agilidade narrativa, pode seduzir um maior números de leitores em solo tropical. Sem final feliz, é claro.
SERVIÇO
- O Filho da Mãe
Autor - Bernardo Carvalho
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 208
Quanto - R$ 39
Fragmento:
A gente só entende quando começa a lutar pelos filhos dos outros. As mães têm mais a ver com as guerras do que imaginam. É o contrário do que todo mundo pensa. Não pode haver guerra sem mães. Mais do que ninguém, as mães têm horror a perder. Você é capaz de tudo para evitar a morte de um filho. É capaz de defendê-lo contra a própria justiça. Os filhos estão acima de qualquer suspeita. Você é capaz de matar por um filho. E acaba recebendo o troco na mesma moeda quando a guerra o leva. Está pronta para defender a prole e o clã contra tudo. Sem querer ver que é daí que nascem as guerras. Todo mundo tem mãe. Até o pior canalha, o pior carrasco. Não deixa de ser uma espécie de fanatismo. Só fui entender quando passei a defender os filhos dos outros. Quando não fui capaz de salvar o meu.
(Fragmento de 'O Filho da Mãe' de Bernardo Carvalho)


