Existem escritores que ensinam ao leitor a colocar a minhoca no anzol, indicam o melhor lugar do rio, a melhor lua para pescar e muitos outros detalhes. Existem também escritores que colocam o peixe nas mãos do leitor, limpinho, sem escama, sem cabeça, sem barrigada. Mas existem aqueles escritores que simplesmente jogam o leitor dentro do rio.
O escritor norte-americano Dennis Lehane se enquadra neste último grupo. Isso não significa que para ele o leitor mereça um afogamento. Significa que, antes de chegar ao peixe, o leitor deve sujar os pés no barro das margens, sentir as águas turvas de perto.
Conhecido como autor de romances policiais, Dennis Lehane escreveu um único volume de contos, ''Coronado''. Lançado no Brasil pela Editora Companhia das Letras, o livro traz uma faceta diferenciada da literatura do autor. As histórias não trazem o processo de investigações de crimes, mas o aquilo que antecede os atos de violência.
Os leitores habituados com a literatura de Lehane, aqueles que já percorreram as páginas de romances como ''Sagrado'', ''Apelo às Trevas'', ''Gone, Baby, Gone'' ou ''Dança na Chuva'', todos protagonizadas pelos detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro, não encontrarão em ''Coranado'' tramas policiais. Encontrarão histórias onde a violência é apresentada como uma reposta à vida desagregada por perdas.
As histórias de ''Coranado'' estão povoadas de personagens desajustados. Pessoas que, afunilados por diversas situações, são impelidos à situações onde a violência torna-se um componente natural. As marcas da violência fazem de seus atos uma resposta para a busca de tranquilidade. Histórias onde apenas os desajustados são capazes de dizer alguma coisa. Figuras que sujam as mãos onde os ajustados não têm coragem de tocar.
Dos cinco contos que integram o volume, dois deles são particularmente perturbadores. Em ''Ficando sem Cachorros'' Lehane consegue colocar um romance, com todos os componentes necessários, dentro do espaço característico do conto. Em ''Até Gwen'', consegue transformar um conto em peça de teatro potencializando o de conteúdo. Em ambos os casos, o autor trabalha com a idéia de que em todo ato violento existe um sentimento amoroso antecedente. Um sentimento que se converteu em raiva, ódio, indiferença ou simplesmente o nada antes de impulsionar uma agressão, uma morte.
A narrativa de Lehane é extremamente simples e direta. Sua grande artimanha está na estrutura utilizada para a condução das informações. Trabalhando com fragmentos de passado e presente paralelamente, oferece a oportunidade do leitor montar o sentido da história narrada. Esse processo fica mais evidente em ''Até Gwen'', que em ''Coronado'' está presente em duas versões, na forma de conto e na forma de peça teatral numa adaptação realizada pelo próprio escritor.
''Até Gwen'' é a história do embate entre pai e filho sobre um passado de roupas sujas. O pai, um sujeito frio, acaba de reencontrar o filho que cumpria pena numa penitenciária por assalto. Ao filho interessa o paradeiro da mulher que ama. Ao pai interessa o fruto do roubo escondido pelo filho antes de ser preso. No meio desse embate, completamente dissimulado, o passado de ambos é apresentado como um jogo intrincado.
Na versão teatral, Lehane coloca além do embate entre pai e filho, outras duas histórias paralelas. A princípio não é perceptível nenhuma relação entre elas, a não ser histórias onde perdas amorosas estão presentes. Com o virar das páginas, leitor começa a traçar correlação entre elas. Correlações pouco evidentes. O autor faz questão de não entregar o peixe, nem ensinar a pescar. Ao leitor cabe apenas pular no rio.


Fragmento do conto ‘‘Desceram Para o Corpus’’ que integra ‘‘Coronado’’, obra de Dennis Leh
  Então ela se põe de quatro, engatinha na cama em minha direção e diz: ‘‘Você acha que esta casa é rica, cara?’’
  Balanço a cabeça, minha garganta fica seca, seus olhos tão meigos e próximos.
  ‘‘Pois não 钒, diz ela. ‘‘Que tal ir para uma casa quatro vezes maior do que essa? Fazer um estrago quatro vezes maior?’’
  Tenho a impressão de por um minuto ter esquecido como se fala. Não sei bem como, Lurlene, seus olhos verdes, seu rosto muito fino parece ter entrado em mim, por baixo da carne, por baixo do osso. Tenho certeza de que nunca vi criatura tão bonita como aquela menina de facão de açougueiro na mão e riso louco nas pupilas. Dá para ver a esperança palpitando nela – uma esperança ansiosa, desvairada, mas pura e doce, querendo apenas ser realizada.
  Ela diz: ‘‘Hein, cara? Você quer?’’
  Concordo com a cabeça novamente. De todo modo, nem sei bem o que fazer da minha vida, e de repente tenho certeza que posso seguir Lurlene por onde ela quiser. Arrebento o que ela quiser. A p... do mundo inteiro, se ela pedir com jeito.
(ane)

Serviço:
- Livro ''Coronado'', de Dennis Lehane. Editora Companhia das Letras, tradução de Luciano Vieira Machado, 198 páginas, R$ 37,00.

mockup