Sentimentos amorosos que nascem no interior de tragédias comovem qualquer um, gregos ou troianos. O coração que procura o amor no exato momento em que atrocidades acontecem parece ser um elemento recorrente na literatura universal.
A escritora cambojana Vaddey Ratner apostou nessa fórmula para criar "À Sombra da Figueira", romance que acaba de ser lançado no Brasil pela Geração Editorial. Publicado originalmente em 2012, o livro tornou-se revelação literária ao retratar a instalação do regime comunista no Camboja em 1975. Um violento regime ditatorial que exterminou milhares de pessoas, quase um terço da população do país.
"À Sombra da Figueira" narra a trajetória de Raami, uma menina de sete anos de idade, descendente do Rei Sisowath. A garotinha é uma mimada princesinha vítima da poliomielite que vive sob a cultura da monarquia. Sua vida, e de toda sua família, vira de ponta cabeça quando os comunistas do Khmer Vermelho, sob a influência dos militantes do Vietnã, tomam o poder do país.
A proposta revolucionária do ditador Pol Pot era transformar o Camboja num país exclusivamente agrícola. Os habitantes das cidades foram deslocados obrigatoriamente para as regiões rurais com o objetivo de cavar diques e plantar arroz. Os que recusavam a nova condição eram simplesmente fuzilados.
De um dia para o outro, a pequena Raami e família são retirados do luxo e jogados numa plantação de arroz, dormindo em esteiras, calejando as mãos no cabo da enxada e comendo o que encontram pela frente. Riqueza, liberdade e felicidade desaparecem. O maniqueísmo torna-se um elemento primário, sem nenhuma profundidade.
Após uma coleção de dramas amargos e atrocidades sangrentas, Raami e a mãe tornam-se as únicas sobreviventes de toda a família. Quando finalmente conseguem fugir do país pela fronteira da Tailândia, são acolhidas como refugiados de guerra.
O leitor que desejar conhecer, através de "À Sombra da Figueira", o exotismo da literatura cambojana, vai amargar uma boa dose de frustração. O romance segue as clássicas receitas dos best-sellers norte-americanos: um drama comovente, alguns copos de água com açúcar, uma dose de contexto histórico impactante, uma boa pitada de esperança e uma boa xícara de superação.
A biografia da autora demonstra que o romance não é puramente ficcional, elementos autobiográfico se misturam em sua narrativa. Vaddey Ratner nasceu no Camboja, em 1970, no seio da monarquia cambojana. Nasceu no mesmo ano em que seu tio instaurou o projeto de República no país. Quando tinha cinco anos de idade, ocorreu a tomada do poder pelo Khmer Vermelho. Após viver, ao lado da mãe, quatro anos em campos agrários de trabalhos forçados, conseguiu fugir para os Estados Unidos, onde viveu grande parte de sua existência. Todos os membros de sua família morreram nesse processo, ela e sua mãe foram os únicos sobreviventes.
A temática central de "À Sombra da Figueira" está estruturada na desintegração familiar pelas atrocidades de um regime político totalitário. Mas há uma sutileza que Vaddey Ratner instaura na narrativa, como a fantasia que a personagem Raami acalenta pela sua idade pela mitologia budista, religião que ocupa o imaginário do povo cambojano.
Também há a milenar ideia de que a palavra é uma reserva de memória afetiva. Fábulas, lendas, histórias e mitos seriam capazes de funcionar como reservas da humanidade, uma espécie de poço onde se pode obter, nas piores situações, água fresca e potável. As trocas de poder pela força, independente dos princípios, tendem a criar não só dramas sociais, mas também dramas familiares. E dentro dos dramas familiares, a afetividade assumiria uma projeção da condição humana.
Uma das passagens mais significativas de "À Sombra da Figueira" acontece justamente quando Raami resolve abrir os olhos para um mundo que não conhece. O mundo das pessoas simples que vivem de acordo com os elementos naturais, na terra, da mão para a boca. Não como uma ideia bonitinha, mas como realidade completamente imediata. Mas Raami vive isso como passagem, como transição necessária em nome da sobrevivência. Uma vez princesa, nunca camponesa.

Serviço:
"À Sombra da Figueira"
Autora – Vaddey Ratner
Editora – Geração
Tradução – Sandra Martha Dolinsky
Páginas – 360
Quanto – R$ 49,90

Ela falava alegremente, sem pausa, contando que desde os treze anos era casada com Pok; que aos quinze anos, quis ter filhos; que ao longo dos anos ela rezara e rezara, e fizeram oferenda a todos os deuses e todos os espíritos de todos os mundos, mas nenhum ouvira suas súplicas; até que, um dia, ela estava velha e enrugada e aceitou seu destino sem filhos. Sim, admitiu, ela e Pok foram abençoados de outras maneiras. Tinham sua terra, o plantio era difícil, mas a colheita suficiente, se não sempre abundante; e, com exceção de sua esterilidade, não sofreram nenhuma doença grave ou catástrofe, considerando sua idade e as guerras por que passaram. Depois, veio a Revolução, e seu Criador, cuja presença estava em toda parte, cujo poder os soldados louvavam interminavelmente. "Não há chuva? A Organização se certificará de que a água seja canalizada para os campos." "Não há arroz suficiente? A Organização lhes mostrará como dobrar, triplicar seu rendimento na próxima safra." Quem era essa Organização? Ela queria saber. Era um semideus, como um rei, ou um sábio iluminado, como Buda? Devia ser um ser divino. Se assim fosse, certamente ela devia atender a seus chamados ao culto, a fazer os sacrifícios e oferendas necessárias. A Organização precisava de voluntários, diziam os soldados. Pessoas simples, verdadeiros camponeses para abrigar os desalojados das cidades. Ela não entendia o que lhe exigiam, mas concordara em colocar a si e sua casa a serviço da Revolução, acreditando que essa seria a forma de que concedessem a ela e a Pok seu desejo, há muito tempo enterrado, de ter filhos, de ter a companhia de outros além de si próprios. E quando ela nos viu – parecendo desamparadas e abandonadas -, sabia que havia sido convocada a oferecer seu poder de mãe; ou, no mínimo, um abrigo. (De "À Sombra da Figueira", de Vaddey Ratner)
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