Numa época longínqua, todos os pássaros do mundo se reuniam para decidir quem seria o rei das aves. Sem um rei, a vida havia estava se tornando um caos. A reunião foi comandada pela poupa, uma sábia ave que sugeriu que em vez de elegerem um rei, deviam procurar o mítico pássaro Simorgh.
Como ninguém sabia onde encontrar Simorgh, as aves empreenderam uma grande jornada. Procuram por Simorgh em florestas, desertos, vales, montanhas e oceanos. Uma longa busca por todo o planeta que se estende por anos e anos. Durante o percurso, muitos morrem, outros tantos desistem da busca.
Quando um pequeno grupo de 30 aves restante finalmente encontra Simorgh, também encontram uma revelação: aquilo que tanto buscavam estava, na verdade, dentro de cada um.
Esse é o enredo da história presente em "A Conferência dos Pássaros", poema épico da tradição sufi. Foi escrito no século 12 pelo poeta persa Farid Ud-Din Attar e tornou-se um dos clássicos da literatura oriental. Ganhou inúmeras versões e adaptações. A mais recente, realizada pelo ilustrador tcheco Peter Sís, acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letrinhas.
A versão de Peter Sís para "A Conferência dos Pássaros" utiliza pouco texto e aposta numa leitura gráfica da história. O resultado é sedutor, utiliza a ideia do labirinto como caminho a ser percorrido, a ser superado. Utilizando labirintos circulares, representa a mutação do labirinto em mandala, realizando uma síntese gráfica da alma da história de Farid Ud-Din Attar.
Farid Ud-Din Attar viveu na cidade de Nishapur, situada no nordeste da Pérsia, entre o final do século 12 e começo do século 13. Trabalhando na loja de remédios e perfumes do pai farmacêutico, recebeu o apelido de Perfumista. Como teólogo sufi e comerciante, viajou por lugares como Egito, Síria, Arábia, Turquestão, Grécia e Índia. Julgado por heresia, foi assassinado por invasores mongóis.
O texto original de "A Conferência dos Pássaros" criado por Farid Ud-Din Attar não apresenta apenas a história das aves em busca de um rei, de um deus. Intercalando as etapas da viagem dos pássaros, há dezenas de narrativas que lembram "As Mil e Uma Noites".
Quem desejar conhecer o texto completo há duas edições disponíveis em português, "A Linguagem dos Pássaros" (Attar Editorial, 1991), que traz uma tradução mais religiosa, e "A Conferência dos Pássaros" (Editora Pensamento, 1987), que traz uma tradução mais histórica.
A versão de "A Conferência dos Pássaros" criada por Peter Sís se restringe à história principal do clássico, não as secundárias. Além da característica fabular de cada pássaro, são apresentados os sete vales percorridos por eles: o Vale da Procura, do Amor, da Compreensão, do Desapego, da Unidade, do Deslumbramento e da Morte.
O livro traz, de maneira simples, o principal argumento da clássica obra oriental: o divino não estaria em algo fora do homem, estaria dentro dele, devidamente escondido no labirinto interno. O lado de fora estaria do lado de dentro.

Serviço:
"A Conferência dos Pássaros"
Autor – Peter Sís
Editora – Companhia das Letrinhas
Tradução – Érico Assis
Páginas – 160
Quanto – R$ 39,50

Centenas de milhares de pássaros haviam partido naquela jornada e ocupado todos os cantos do mundo. Muitos não conseguiram. Alguns, aflitos e intimidados, fugiram de medo. Outros até prosseguiram, mas foram reprimidos. Eles perderam o rumo, a razão, morreram de fome, do calor do sol, da vastidão dos oceanos... Foram destruídos por feras e se horrorizaram com o que viram pelo caminho. Finalmente, os pássaros esfarrapados que restaram chegaram ao final dos sétimo vale. - Estamos vivos ou mortos? Onde está aquele rei que tem todas as respostas? Chegamos até aqui, agora deixe-nos vê-lo! Conseguimos atravessar todos os vales! - Vales? Aquilo era só uma ilusão, um sonho. Não atravessamos nada. Estamos apenas no princípio de nossa jornada. (Fragmento de "A Conferência dos Pássaros" de Peter Sís)
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