LEITURA - Jogos do acaso
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Algumas pessoas chamam de coincidência. Outras chamam de acaso. Existem ainda aqueles que chamam de destino. Independentemente da nomenclatura escolhida, são acontecimentos que não conseguem ser explicados de maneira puramente lógica. Na maioria dos casos, são acontecimentos que não necessitam de explicações. Acontecem.
Em seu novo livro ''O Caderno Vermelho'', o escritor norte-americano Paul Auster reúne uma série de histórias em que coincidência, acaso e destino ocupam lugar de destaque. São histórias reais que ele viveu ou ouviu alguém contar. Narrativas do cotidiano das relações humanas, curiosas histórias de vida.
Lançado pela editora Companhia das Letras, trata-se do primeiro livro de Paul Auster editado no Brasil em formato de bolso. ''O Caderno Vermelho'' não é uma obra idealizada a partir de um conceito definido. Reúne quatro textos publicados originalmente em revistas literárias norte-americanas entre 1992 e 2002. Percebendo as semelhanças entre eles, Auster unificou as histórias numa mesma estrutura.
Em ''O Caderno Vermelho'' não utiliza sua peculiar criatividade para compor intrincadas narrativas como aquelas presentes em seus últimos romances. Seu objetivo parece ser apenas contar pequenas e simples histórias curiosas, algumas com elementos trágicos, outras com situações cômicas. Tudo de maneira muito simples e centrado na força do acaso em acentuar os imprevistos da vida.
Nos espaços vagos deixado pela imprevisibilidade, surgem as manifestações das coincidências e do acaso. Para acentuar o caráter pouco lógico das histórias, Paul Auster insere, de maneira sutil, a ideia da sorte e do azar como elemento do jogo. Nesse sentido, ''O Caderno Vermelho'' pode ser considerado uma interseção de outras duas obras de sua autoria: ''A Música do Acaso'' (Best Seller, 1993) e ''Achei que Meu Pai Fosse Deus'' (Companhia das Letras, 2005). Da primeira, utiliza as incertezas do acaso atuando sobre a realidade. Da segunda, faz uso da realidade que assume aparência ficcional graças às características surpreendentes.
Em um dos textos de ''O Caderno Vermelho'', Auster conta um episódio de sua infância que o conduziu para se tornar escritor. Aos oito anos de idade, ele era um torcedor alucinado de beisebol. Na primeira vez que teve a chance de assistir um jogo importante num estádio, viu a sorte bater em sua porta. Quando deixava o lugar, na companhia dos pais, cruzou com seu maior ídolo. Embora acanhado, teve coragem de pedir um autógrafo. Mas o azar logo abriu as portas. Ele não tinha nenhuma caneta, nem o jogador, nem seus pais, nem ninguém.
A partir desse dia, o garoto Auster passou a andar com uma caneta no bolso em qualquer situação. Levava uma caneta a qualquer lugar, sempre tinha uma caneta no bolso. Até no bolso do pijama. Uma mania que o acompanhou por toda a vida. A partir dessa proximidade com a caneta, passou a anotar coisas, rascunhar histórias e assim por diante. Não foi a vontade de escreve que o levou até a caneta e, consequentemente, às palavras. Foi a caneta que o levou às palavras.
A simplicidade das histórias de ''O Caderno Vermelho'' relembra aquelas situações em que o sujeito tem um único palito de fósforo e, inexplicavelmente, vê o palito cair numa poça d'água. Ou aquelas situações em que o sujeito não tem nenhum palito e, inexplicavelmente, encontra um na boca de um cachorro sorridente. Acaso, coincidência, destino. Independentemente da nomenclatura, fatos que não conseguem ser explicados de maneira puramente lógica.
SERVIÇO
- O Caderno Vermelho
Autor - Paul Auster
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Rubens Figueiredo
Quanto - R$ 16 (96 pág.)
Fragmento de 'O Caderno Vermelho' de Paul Auster
O grande Willie Mays ficou ali parado, esperando, em silêncio. Quando se tornou bem claro que ninguém no grupo tinha nada com que se pudesse escrever, ele se virou para mim e deu de ombros. ''Desculpe, garoto'', disse. ''Se não tem caneta, não posso dar autógrafo.'' E então ele foi embora do estádio, para dentro da noite.
Eu não queria chorar, mas as lágrimas começaram a cair pelas minhas bochechas, e não havia nada que eu pudesse fazer para contê-las. Pior ainda, chorei durante todo o trajeto para casa, no carro. Sim, eu estava arrasado de frustração, mas também estava revoltado comigo mesmo por não ser capaz de controlar as lágrimas.


