Ele foi capaz de escrever um romance sem usar a letra ''e''. Como também foi ousado o suficiente para escrever um conto fazendo uso apenas da vogal ''e''. Frequentou o ''Guinness'', o livro dos recordes, como autor do maior palíndromo da língua francesa. Essas e outras façanhas fizeram de Georges Perec (1936 - 1982) um dos grandes escritores que eliminaram os limites entre jogo e literatura.
Em grande parte de sua obra, trabalhou a literatura como se ela fosse um engenhoso ''puzzle''. Essa característica o levou a integrar o lendário ''Oulipo'' (Ouvroir de Littérature Potentielle) grupo de poetas e prosadores que, nos anos 60, empenhou-se em experimentar as possibilidades da escrita. Tanto as lógicas como as malucas. Figuras como Raymond Queneau, Italo Calvino e Jacques Roubaud faziam parte do grupo.
Pouco antes de morrer em 1982, vítima de câncer, Georges Perec trabalha numa série de textos que ele incorporava o ''jogo literário'' no interior da própria história narrada. Dois desses trabalhos estão em ''A Coleção Particular'' que acaba de ser lançado pele Editora Cosac Naify. O livro traz a novela ''A Coleção Particular'', que dá título ao volume, e o conto ''A Viagem de Inverno''.
Em ''A Coleção Particular'', Perec narra aparentemente a história de um quadro. Aparentemente porque, com o desenvolvimento da narrativa, apresenta a história de um engodo. No quadro em questão está registrado a imagem do colecionar de arte Humbert Rafke ao lado de seu acervo. Rico empresário, Rafke ao longo do tempo conseguiu acumular uma valiosa coleção.
Para perpetuar sua imagem, contrata um pintor para retratá-lo juntamente com seus quadros.®MDBO¯®MDNM¯ O artista escolhido consegue realizar uma obra sem precedente onde reproduz os quadros da coleção com imperceptíveis e engenhosas alterações. A consagração acontece rapidamente. O drama é que Rafke morre logo em seguida e, segundo seu testamento, a obra-prima deve ser enterrada junto com seu corpo.
Em ''A Coleção Particular'', Perec joga com extrema elegância com as noções de verdadeiro e falso. Chega até mesmo a iludir o leitor com maestria para, em seguida, revelar como funciona a arte do ilusionista das palavras: as artimanhas do verbo.
Da mesma maneira, em ''A Viagem de Inverno'' o escritor francês realiza um jogo entre as noções de originalidade e plágio. Narra a história de um pesquisador que descobre, inesperadamente, um desconhecido escritor que parece ter plagiado meio mundo. Estudando o caso, descobre que na realidade foram poetas renomados que o plagiaram. O problema é que não consegue provar sua polêmica descoberta. Isso porque os exemplares da obra do autor desconhecido desaparecem, simplesmente deixam de existir.
O leitor que desejar conhecer a literatura de Georges Perec de maneira mais completa, é indicado a leitura de ''A Vida Modo de Usar'', considerada sua obra prima. O romance que narra a histórias dos habitantes de um edifício, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1991. A narrativa está estruturada a partir do desenho da planta do prédio. Pulando de cômodo em cômodo seguindo sempre a movimentação do cavalo no jogo de xadrez, Perec descreve os detalhes dos ambientes e conta histórias que envolvem tanto atuais moradores como os antigos.
Não é sem motivo que Perec considerava o livro um ''romances'', no plural mesmo. Trata-se de dezenas e dezenas de histórias dentro de uma única célula narrativa. Italo Calvino (1923 - 1985) considerava ''A Vida Modo de Usar'' um bom exemplo de ''hiper-romance'', onde Perec deixava claro que a literatura pode ser considerada uma espécie de jogo. Um jogo onde as palavras estão abertas a infinitas regras.

Serviço:
- ''A Coleção Particular'', de Georges Perec. Editora Cosac Naify, tradução de Ivo Barroso, posfácio de Adriano Schwartz, 96 páginas, R$ 29,80.

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