LEITURA - Jogo de repetições
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de dezembro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O nome da escritora norte-americana Gertrude Stein (1874 - 1946) está gravado na arte vanguardista da primeira metade do século 20. Também está gravado na galeria de figuras que apostaram em artistas em início de carreira como Picasso, Matisse, Guillaume Apollinaire, Erik Satie, Paul Bowles, Ernest Hemingway, Jean Cocteau, entre outros.
Sua primeira obra literária, ''Três Vidas'', acaba de ser lançada pela editora Cosac Naify. Publicada originalmente em 1909, o volume reúne três novelas onde as mulheres ocupam lugar de destaque. Em ''A Boa Anna'' e ''A Gentil Lena'', as protagonistas são imigrantes alemãs que fixam residência nos Estados Unidos para trabalharem como empregadas domésticas. São figuras que dedicam completamente suas vidas às patroas ou à família, eliminando qualquer inspiração de individualidade.
Em ''Melanctha'', terceira novela do livro, a protagonista é uma mulata vivendo entre o preconceito e o desejo tanto heterossexual como homossexual. Trata-se do texto mais elaborado da obra, onde a narrativa inovadora de Gertrude Stein recebe o reforço de planos psicológicos internos dos personagens. Não há uma história a ser narrada, apenas situações que geram possibilidades de pensamento.
''Três Vidas'' possui basicamente duas inovações narrativas para a época em que foi escrito. A primeira seria a repetição de frases ao longo do texto. Stein repetia dezenas de frases ao longo das páginas com leves alterações numa espécie de jogo variações. Aquilo que num primeiro momento poderia ser considerado mera redundância, na realidade era um recurso que passou a ser chamado na literatura de ''eco interno''. Esse elemento seria ampliado radicalmente na obra poética da escritora e se tornaria uma das principais características de sua literatura sintetizada na famosa frase ''uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa''.
A segunda inovação seria o abuso deliberado de adjetivos. Stein usava a adjetivação como elemento de reforço da descrição. Em algumas frases, utilizava dezenas de adjetivos pontuados apenas por vírgulas no sentido frisar a reiteração. Curiosamente, o escritor Ernest Hemingway (1898 - 1961), um de grandes admiradores da obra de Gertrude, ganhou notoriedade por criar uma obra pautada justamente pelo inverso: a eliminação dos adjetivos na literatura.
Nascida nos Estados Unidos no seio de uma família de imigrantes alemães, Gertrude Stein nunca precisou pensar em dinheiro. Caçula, teve a sorte de poder torrar a fortuna deixada pelo pai. Abandonou o curso de Medicina para viver em Paris oferecendo ajuda a um grupo de artistas até então desconhecidos. Homossexual mais que assumida para a época em que viveu, sua existência sempre esteve atrelada às inovações de seus textos.
''Três Vidas'' pode ser considerada uma mostra de como a literatura do começo do século 20 estava totalmente aberta para novas experiências de linguagem. Uma experiência que abriu caminho para criações mais radicais. As primeiras novelas escritas por Stein formam uma espécie de plano piloto para sua futura obra poética construída como síntese evoluída e depurada das experiências iniciais.
Das três novelas que integram ''Três Vidas'', o grande destaque recai sobre ''Melanctha''. Além de uma estrutura de linguagem bem elaborada, apresenta possibilidades de comportamentos ousados não declarados. Stein aponta para o desejo sexual de maneira indireta, abandona o foco principal para iluminar uma perspectiva mental da libido.
Fragmento da novela Melanctha que integra o livro Três Vidas de Gertrude Stein
Nas pessoas de natureza delicada, que nunca sentiram paixões intensas, o sofrimento às vezes vem para fortalecer. Quando não se sabe o que é sofrer, a dor tem um aspecto terrível e se deseja ardentemente ajudar a todos que estejam sofrendo; essas pessoas enxergam com profunda reverência quem conhece o sofrimento. Mas quando chega a hora de sofrerem por si próprias, elas perdem o medo, a ternura e a admiração. Afinal, o sofrimento nem é lá grande coisa, já que elas mesmas não conseguem suportá-lo. Não é fácil de se agüentar, mas, no fim das contas, os outros não passam a ser mais sábios só porque também sabem suportá-lo.
As pessoas de natureza passional, que já se acostumaram a sofrer, e para quem as emoções são sempre apaixonadas, o sofrimento vem para apaziguar. E vem para o bem. Já as pessoas de natureza delicada, impassíveis e relaxadas se fortalecem quando sofrem, pois perdem o medo, a reverência e a admiração que tinham por aqueles que sofriam, já que eles mesmos descobrem como é sofrer e que não é tão ruim quanto pensavam.
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SERVIÇO
- Três Vidas
Autora - Gertrude Stein
Editora - Cosac Naify
Tradução - Vanessa Barbara
Posfácio - Flora Sussekind
Páginas - 248 (capa dura)
Quanto - R$ 46


