LEITURA - Jogo de espelhos entre o bem e o mal
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Na história da literatura é comum alguns escritores receberem determinados rótulos que grudam na pele de seus escritos feito tatuagem. Com o passar do tempo fica difícil separar a obra dos rótulos repetidos com exaustão.
O escocês Louis Robert Stevenson (1850 - 1894), por exemplo, ganhou o rótulo de autor de romances de aventuras e relatos de viagens. E para completar o carimbo, autor de histórias infantojuvenis. Em qualquer parte do mundo esses rótulos se tornaram a pele de sua literatura.
Claro que Robert Louis Stevenson escreveu romances de aventuras, relatos de viagens e suas histórias ganharam centenas de versões infantojuvenis, mas tudo isso corresponde a apenas uma parte de seus escritos. Outra parte, extremamente rica, permaneceu restrita aos leitores que procuravam a essência de sua obra.
Essa parte, hoje relativamente restrita, está em ''O Clube do Suícidio'', antologia de contos e novelas do escritor que acaba de ser lançada pela editora Cosac Naify. Com seleção do professor Davi Arrigucci Jr., o volume reúne seis narrativas que trazem a essência de sua temática: a manifestação dos duplos, a divisão de personalidade, o jogo de espelhos e a batalha de forças entre o bem e o mal.
A história mais conhecida presente no livro é a lendária ''O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde'', novela que recebeu montanhas de versões e ganhou popularidade sob o título de ''O Médico e o Monstro''. Traz o conflito de um médico que desenvolve uma droga capaz de transformá-lo em outra pessoa. Dando forma material a sua dupla personalidade, vive o lado bom e o lado mal do ser humano.
Na narrativa original, a discussão é mais complexa do que aquela presente nas mais variadas versões e adaptações. No texto original de Stevenson, que teve a idéia da novela durante um sonho febril e a escreveu adoentado numa cama, o Dr. Jekyll desenvolve a droga justamente para dar vazão ao lado mal de sua personalidade, o Mr. Hyde. Com o tempo ele passar a sentir prazer em viver seu lado mal, e o lado mal passa a exigir cada vez mais presença em relação ao espaço do bem - nada mais clássico.
Resumindo, não adianta oferecer o dedinho ao mal, logo ele quer a mão toda. E logo segue o braço, pernas, tronco, etc. O mal não se contenta com pouco, ele deseja tudo. Uma espécie de síntese do arquétipo da batalha entre o lado correto e o incorreto do ser humano. A eterna sedução que o mal é capaz de exercer, desde o primeiro anjo caído, até a guerra moral contemporânea dentro de personalidades duplas e contraditórias.
O conto ''O Demônio da Garrafa'' também segue na mesma direção. Inspirado numa lenda das ilhas do Pacífico Sul, traz a história de um sujeito que compra uma garrafa com um demônio dentro. Numa ramificação das histórias árabes das ''Mil e Uma Noites'', o objeto realiza todos os pedidos de seu proprietário. Acontece que ao lado do bom da coisa, a satisfação dos desejos, há o lado ruim: o proprietário cede a alma ao diabo para possuir a garrafa.
Esse jogo também está presente em ''O Ladrão de Cadáveres''. O conto narra a história de um estudante de medicina que, estimulado por seu professor, compra cadáveres para as aulas de dissecação. Aos poucos é impelido a roubar corpos recém enterrados no cemitério para as aulas. Sob o argumento de que alguém precisa fazer o serviço sujo para o ensino, as formas entre o bem e o mal trocam de lugares num jogo de força que caminha até o caos mostrar suas unhas.
Em ''O Clube do Suicídio'', que dá nome ao volume, há a história de um clube secreto onde se reúnem aqueles que desejam colocar um fim em suas próprias vidas. Como em qualquer outro clube, há confraternizações e festas, mas no final, num jogo de cartas, são escolhidos dois nomes. Aquele que deve morrer e aquele que deve matar. A idéia do suicídio, no caso, se resume em aceitar ser assassinado. O jogo que se estabelece é claro: aquele que deseja morrer também deve matar o outro que deseja morrer. Um típico jogo de espelhos. Toda a história passa pelo envolvimento de um rico sujeito que, sedento por aventuras, cai no clube e passa sua vida tentando reconfigurar a justiça moral.
As histórias de Stevenson podem parecer histórias próximas do horror. Na verdade são histórias que utilizam o elemento do horror como elemento universal da prática dos tradicionais contadores de história. Um tipo semelhante aos elementos utilizados pelo norte-americano Edgar Allan Poe (1809 - 1849), onde o horror aparece tanto associado ao fantástico quanto à narrativa policial moderna.
A forma narrativa de Stevenson é inspirada na tradicional narrativa oral dos contadores de histórias. Não em sua estrutura verbal, mas em sua capacidade de condução. Não foi sem razão que quando o escritor viveu os últimos anos de sua vida numa das ilhas de Samoa, recebeu dos nativos o nome de Tusilata, literalmente ''contador de histórias'' na língua do lugar.
O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 - 1986) está entre os vários seguidores da literatura de Robert Louis Stevenson. O uso da temática dos duplos, o universo dos sonhos, do jogo de espelhos, a dualidade de personalidade presente na literatura de Borges provém da admiração que o argentino tinha das histórias de Stevenson. Sem deixar de lado os elementos fantásticos e das tramas policiais onde o suspense se revela elemento determinante.
Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo, Escócia, em 1850, numa família tradicional de construtores de faróis. Desde a infância apresentou saúde precária por problemas respiratórios. Tornar-se tuberculoso foi um pulo. Viajou pelos mais distintos lugares procurando o ar ideal para amenizar suas crises respiratórias. Foi por esse motivo que se instalou em Samoa, onde viveu os últimos anos de sua vida.
Uma das características da literatura de Stevenson está na capacidade de oferecer ao leitor a possibilidade participar da narrativa. Invariavelmente há buracos, vazios e silêncios que apenas o leitor pode completar. A mágica acontece nos olhos do leitor, não no texto escrito. Aquele tipo de mágica que ainda faz da literatura uma arte detentora de sentidos.
Serviço:
O Clube do Suicídio
Autor - Robert Louis Steveson
Editora - Cosac Naify
Seleção e apresentação - David Arrigucci Jr.
Tradução - Andréa Rocha
Ensaios - Henry James e Vladimir Nabokov
Páginas - 448 (capa dura)
Quanto - R$ 66,00
Fragmento:
Meu demônio passou muito tempo enjaulado e, quando saiu, estava rugindo.. Assim que tomei a poção, tive consciência de uma propensão mais descontrolada, mais furiosa, para o mal. Deve ter sido isso, suponho, que provocou em minha mente aquela tempestade de impaciência com que reagi aos bons modos da minha infeliz vítima; declaro enfim, que nenhum homem moralmente são cometeria aquele crime por um motivo tão insignificante; o que regia meu ataque foi um espírito não razoável do que aquele com que uma criança contrariada é capaz de quebrar um brinquedo. Porém, eu havia voluntariamente me despojado dos instintos mais básicos de equilíbrio, com que mesmo o pior de nós conta pra manter algum grau de estabilidade em meia às tentações; e, no meu caso, ser tentado, pelo mínimo que fosse, significava sucumbir.
(Fragmento do conto ''O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde'', que integra ''O Clube do Suicídio'', de Robert Louis Stevenson)


