No final de 2012 o escritor norte-americano Philip Roth anunciou sua aposentadoria literária. Aos 79 anos de idade, afirmou que estava tirando definitivamente o time de campo. Não pretendia narrar mais nenhuma história, não queria escrever mais nenhum livro.
A decisão nasceu em 2010 após terminar seu último romance, "Nêmesis", publicado no Brasil em 2011 pela Companhia das Letras. A sensação era de que, após 31 livros publicados, não tinha mais nada a dizer. Em suas palavras, a briga com a escrita havia acabado.
Para reforçar sua decisão, começou a reler seus próprios romances, dos mais recentes aos mais antigos. Satisfeito com o resultado concluiu que estava de bom tamanho seu trabalho. Percebeu que não teria mais nenhuma grande ideia. Havia feito o melhor que poderia ter feito com aquilo que tinha nas mãos.
A última obra que releu foi "O Complexo de Portnoy", romance que fez tremendo barulho quando foi publicado 1969 e impulsionou sua carreira literária. Nele Philip Roth cria uma patologia que leva o nome do personagem principal e narrador do romance, Alexander Portnoy, resumida como "quadro móbido caracterizado por fortes impulsos éticos e altruísticos em constante conflito com anseios sexuais extremos, muitas vezes de natureza pervertida".
Ou seja, o sujeito abatido pela síndrome, é um compulsivo sexual que corre atrás de todo tipo de fantasia erótica para, logo em seguida, ser abatido pela vergonha, soterrado por uma tonelada de culpa e aguarda a devida punição. O típico neurótico. E mais: os sintomas remontam aos vínculos que se formaram na infância no relacionamento entre mãe e filho.
Todo o romance é constituído pelo relato de Alexander Portnoy, sentado num divã, frente a um psicanalista. Tudo carregado de muito humor e ironia. Para aumentar a comicidade, o personagem vive no seio de uma família judia dos Estados Unidos. Em seu relato, expõe o típico humor judaico, com o papel da mãe opressora em destaque ao lado do pai nocauteado por uma eterna prisão de ventre. Aquele típico humor que Woody Allen desenvolveu em seus textos e alguns de seus filmes.
Durante a infância, Portnoy não pode dar um passo fora dos cuidados da mamãe. No inicio da adolescência se entrega a uma maratona de masturbação compulsiva se trancando no banheiro dúzias de vezes ao dia. A mãe, acreditando tratar-se de uma diarreia crônica, empreende um levante contra a ingestão de porcarias pelo filho fora de casa. As situações hilárias são sucessivas e se estendem até a idade adulta do filhinho da mamãe, aos 33 anos, quando ele finalmente senta num divã.
Passando por uma coleção de autodepreciações e auto-humilhações, Portnoy segue amando garotas judias e desejando dormir com garotas não judias. Isso até trombar com uma loura burra e fatal que só pensa em sexo. Juntos, vivem aventuras pervertidas de exibicionismo, voyeurismo, fetichismo e muito mais. E, lógico, toneladas de vergonha e culpa à espera do final.
"O Complexo de Portnoy" é conhecido como o romance com a mais rica fauna e flora de práticas onanistas da literatura americana. Também reflete o inicio da revolução sexual da década de 1960, entre a opressão e a liberdade. No caso, do ponto de vista totalmente contraditório de um neurótico sufocado por princípios judaicos.
Abaixo de toda camada de humor e ironia, Philip Roth insere o conflito da ideia freudiana de "comportamento amoroso normal". Um comportamento que, para que aconteça, é necessário que se combinem duas correntes de sentimento, os sentimentos afetivos e os sentimentos sensuais. A pedra do sapato é que nem sempre isso ocorre. E Portnoy é um personagem exemplar nesse sentido. Seu drama mais reservado é admitir que existem pessoas que, quando amam, não desejam, e, quando desejam, não conseguem amar. E essa seria, discretamente, a grande síndrome.

Serviço:
"O Complexo de Portnoy"
Autor – Philip Roth
Editora – Companhia de Bolso
Tradução – Paulo Henriques Brito
Páginas – 408
Quanto – 25,00


Fragmento:
"Sai debaixo dessa cama! Está ouvindo? O que você fez com sua mãe é pior do que fosse com um cachorro!" A vassoura dela, implacável, ainda continua tentando me expulsar de minha caverna. "Mas o que fazer com um filho que se recusa a pedir desculpas? Que é incapaz de pedir desculpa à mãe dele e prometer a ela que nunca mais, nunca mais vai fazer uma coisa assim! O que é que a gente faz com um menininho assim, papai, na nossa casa!"
Será que ela está brincando? Será que ela está falando sério? Por que é que não chama logo a polícia e me manda para a prisão de crianças, se sou tão incorrigível assim? "Alexander Portnoy, cinco anos de idade, você está condenado à forca por haver se recusado a pedir desculpar a sua mãe." Quem ouvisse era capaz de pensar que aquela criança ali, bebendo leite e tomando banho de banheira com seu patinho de borracha, era o criminoso mais procurado do país. No telefone, ela vive dizendo a quem quer que não a esteja ouvindo do outro lado da linha que seu maior defeito é ser boa demais. "Dou tudo que tenho para as pessoas", ela admite, com um suspiro, "e em troca me dão um soco na cara – e meu defeito é que podem me dar soco na cara até não poder mais, que eu continuo sendo boa."

(Fragmento de "O Complexo de Portnoy" de Philip Roth)

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