O conceito é sedutor. Conhecer pessoas invisíveis que formam uma cidade. Vidas escondidas dentro de casas e apartamentos.
A ideia apareceu na cabeça da cineasta americana Miranda July quando ela vivia imersa numa crise criativa. Não conseguia finalizar o roteiro de seu novo filme, "O Futuro". Em meio a brancos diários, resolveu folhear um jornalzinho de classificados de distribuição gratuita da cidade de Los Angeles. Constatou anúncios inusitados. Pessoas vendendo coisas usadas como jaquetas, malas, cartões de natal, álbuns de fotografias, secador de cabelo, trajes indianos, estojo de pintura e urso carinhosos – além de bichos como filhotes de gato-de-bengala e girinos de rã-touro.
Bateu a sacada de entrevistar esses anunciantes de coisas estranhas e improváveis - tudo por preços módicos. A missão seria caçar histórias, conhecer um pouco da vida dessas pessoas invisíveis que formam as cidades. Na tarefa, Miranda July encontrou figuras peculiares, completamente reais, que pareciam ter sido criadas pela mais exacerbada das ficções.
As perguntas eram simples. "Como você passa o seu tempo?". "Quais os seus planos para o futuro?". "Qual a sua lembrança mais antiga?". "Qual foi a parte mais estranha de sua vida até agora?". O projeto, que se misturou com o roteiro do filme, deu origem ao livro "O Escolhido Foi Você", que a editora Companhia das Letras está lançando.
"O Escolhido Foi Você" engana. Não é o que parece ser. O foco principal não é a vida de pessoas invisíveis, mas o processo de realização do roteiro de "O Futuro". As entrevistas com os anunciantes dos classificados são apenas um instrumento para Miranda July superar a crise e concluir o roteiro de seu filme.
O livro, na realidade, é o relato íntimo do processo vivido pela autora em sua crise diante da criação do filme. Mesmo abrindo as portas do mundo externo, através dos anunciantes entrevistados, Miranda July não sai do cercadinho de seu próprio umbigo. Vislumbra interessantes coisas além, mas não avança, sempre retorna apavorada ao cercadinho seguro e ensimesmado. Chega até tratar com certo desdém os entrevistados que não se encaixam em suas expectativas, que não possuem nada a contribuir com algum insight para sua obra de arte.
Miranda July nasceu em 1974. Excêntrica, é o tipo de artista contemporânea que provoca tanto amor quanto ódio no público. Cultuada por alguns como gênio e acusada por outros de picareta, atua como videomaker, artista plástica, escritora, roteirista, cineasta e atriz. Seu primeiro longa-metragem, "Eu, Você e todos Nós" (2005) recebeu o prêmio de melhor filme de diretor estreante no Festival de Cinema de Cannes em 2005. "O Futuro", seu segundo longa, foi lançado em 2011 e deve começar a ser exibido no Brasil nos próximos meses.
Em "O Escolhido Foi Você" não há fingimento. Tudo é exposto às claras, sem pudores. Essa é salvação da obra. A parte do processo que merece destaque surge quando Miranda tem a ideia de colocar os anunciantes entrevistados como atores do filme. Não exatamente como atores, mas como pessoas reais interpretando suas próprias vidas reais. Aí tem início a divisão das águas. Diante das câmeras, as pessoas deixam de ser reais, deixam de ser elas mesmas para assumirem a forma de personagens.
O único que não cai nessa armadilha é Joe, um senhor de 81 anos de idade que bate de frente com uma das questões de "O Futuro", a morte. Joe sabe que está no final de vida, tudo à sua volta aponta para isso. E sua relação com isso possui uma discreta e luminosa nobreza. Tudo devido à relação que manteve diante da vida ao longo das décadas.
"O Escolhido Foi Você" é o relato de um processo que assume a forma de obra. Nada mais conceitual. Nada mais contemporâneo, a um passo de uma instalação.

Serviço:
"O Escolhido Foi Você"
Autor – Miranda July
Fotografias – Brigitte Sire
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Celina Portocarrero
Páginas – 224
Quanto –R$ 52

Fragmento:
Perguntei obstinadamente a cada vendedor se ele usava computador. A maioria não usava e, embora tivessem muito a dizer sobre outras coisas, não tinham muito a dizer sobre essa, sobre essa ausência. Comecei a perceber que fazia a pergunta só para lembrar a mim mesma que eu estava num lugar onde computadores na verdade não importavam, só para me admirar com isso. Como se eu receasse que o escopo daquilo que eu podia sentir e imaginar estivesse sendo limitado na surdina pelo mundo dentro de um mundo, a internet. As coisas fora da rede tornavam-se mais distantes de mim, e tudo dentro dela parecia relevante ao extremo. Blogs de estranhos precisavam ser lidos todos os dias e pessoas próximas, sem presença no ciberespaço, tornavam-se quase figura de desenho animado, como se faltasse nelas uma dimensão.
Não quero dizer que eu pensava assim de verdade; aquilo só estava acontecendo – como o tempo, como a geografia. A rede parecia tão inerentemente infinita que não me ocorria o que não estava ali. Minha ânsia por fotos, vídeos, notícias e músicas era agora tão gigantesca que se alguma coisa estava encolhendo, alguma coisa incomensurável, como eu perceberia?
(Fragmento de "O Escolhido Foi Você" de Miranda July)

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