LEITURA - Inocência em desencanto
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A inocência é o tipo de atributo dúbio. Tanto pode ser considerado uma virtude enaltecida pela ingenuidade, como um vício alimentado pela idiotice. Distante do universo infantil, ela assume a forma de um parque de diversões desativado, onde a alegria chora encolhida num canto escuro.
A inocência desenhada pelo escritor inglês Ian McEwan em ''O Inocente'', romance lançado pela Companhia das Letras, se assemelha muito mais a um sombrio trem fantasma psicológico do que a um carrossel de luzes coloridas em movimento. Escrito em 1989, revela um pouco porque McEwan é um autor cultuado em seu país, louvado como ''herdeiro de Henry James''.
''O Inocente'', na realidade, foi publicado no Brasil dez anos atrás pela Editora Rocco, e agora reaparece em nova edição. Nesse tempo, a produção de McEwan ganhou maior evidência, tornando um nome referencial na literatura européia das últimas duas décadas. A história central do romance, partindo de uma trama de espionagem, não possui nenhuma surpresa. Trata-se de um enredo recorrente que inunda a literatura de língua inglesa. A grande diferença é a ampla capacidade narrativa de McEwan.
''O Inocente'' narra a história de Leonard, um inglês, técnico em telefonia, que o exército britânico envia a Berlim para trabalhar numa operação secreta de espionagem. Através de um túnel que avança sobre o lado Oriental da cidade, americanos e ingleses tentam grampear as linhas telefônicas do exército russo. O ano é 1955, início da reconstrução da cidade e começo da Guerra Fria.
Leonard é um jovem, tímido e reservado, de 25 anos que sempre viveu sob as rédeas dos pais, nunca namorou, desconhece os prazeres do sexo e não sabe muita coisa sobre o mundo e as pessoas que o habitam. Sozinho em Berlim, começa a vislumbrar a existência da liberdade. Pelas mãos de Maria, uma bela mulher alemã divorciada e mais velha que ele, é lançado ao universo do amor e do sexo.
Para preservar esse amor, uma espécie de oásis em meio à destruição da guerra, Leonard e Maria terão que olhar a realidade de frente. Cometerão um gesto sinistro e violento de maneira inesperada. Algo que perturbará suas existências para sempre. Um gesto que determinará o destino de suas vidas, inundando de sombras aquilo que antes parecia banhado de luz.
Assim, Leonard entra em contato com o mundo real, duro e adulto, onde a inocência passa a ser uma corrente se arrastando pela escuridão da existência. Assim, o gesto que seria executado para proteger o amor, torna-se um gesto que o aniquila, que o lança para o impossível. E compreender isso consome o tempo e atormenta a mente.
Nascido em 1948, Ian McEwan em ''O Inocente'' dá inicialmente a idéia de caminhar em direção a uma romance de espionagem baseado em fatos históricos, depois assinala caminhar a uma história de amor. Logo após, faz da narrativa um vale sinistro onde o delírio arma seu circo, em seguida demonstra como o destino é uma animal faminto. Nesse processo todo, o que permanece é a idéia de que o modo que lemos os acontecimentos, sempre revela apenas uma parte da verdade. E a verdade, na maioria das vezes, se apresente como algo inalcançável, distante e difuso.
Pela sua capacidade de surpreender o leitor, retalhando os caminhos das histórias de maneira deliberada e inteligente, Ian McEwan é o tipo de escritor que faz da literatura um reflexo direto das inquietações do mundo contemporâneo. Praticamente todos seus romances foram publicados no Brasil: ''Primeiro Amor, Últimos Sacramentos & Entre Lençóis'' (contos, 1975), ''No Jardim de Cimento'' (1978), ''Ao Deus Dará'' (1981), ''A Criança no Tempo'' (1987), ''Cães Negros'' (1992), ''O Sonhador'' (infanto-juvenil, 1994) ''Amsterdam'' (1998), ''Amor Para Sempre'' (1998), ''Reparação'' (2002). Os dois últimos merecem atenção especial. Sem inocência.
Serviço:
- ''O Inocente'' de Ian McEwan, Editora Companhia das Letras, tradução de Alexandre Hubner, 326 páginas, R$ 42,50.


