Alguns consideram o casamento um bolo de cereja. Outros o consideram uma caixinha de surpresa. E há aqueles que o consideram uma caixinha de serpentes.
Em seu novo romance, "Memórias de Um Casamento", o escritor polonês Louis Begley coloca algumas serpentes na caixinha de surpresa para retratar um desafortunado matrimônio. Aquele tipo de casamento conturbado e fadado ao fracasso, mas que em nome de alguma coisa chamada amor se arrasta através dos anos.
A história é narrada por Philip, um senhor que, após o falecimento da esposa começa a se interessar pela história do casamento de Lucy, uma antiga amiga da juventude. Sem se encontrarem a décadas, os dois passam a ter longas conversas sobre o passado.
O grande foco é a relação de Lucy com Thomas, seu falecido ex-marido, amigo de Philip. Em pouco tempo, Philip percebe que, apesar da convivência, não sabia da verdadeira realidade que cercava o casamento de Lucy e Thomas. E quando aprofunda a questão, percebe que não conhecia realmente as pessoas com as quais convivia.
Para contrapor o relato de Lucy, Philip passa a ouvir relatos de pessoas próximas de Thomas. E assim compõem duas faces da história de um mesmo casamento. Cada um dos lados, marido e mulher, estabelece leituras completamente diferentes dos mesmos acontecimentos. Para completar acrescenta-se a leitura de amigos, filhos, familiares, novas esposas, novos esposos e amantes.
O narrador realiza uma espécie de arqueologia de um casamento fracassado. E os fatos e sentimentos exumados revelam o sistema de classes da sociedade norte-americana profundamente pautada pelos elementos econômicos. E essa é uma das características da literatura de Louis Begley, revelar como a estratificação de classes nos Estados Unidos é um elemento invariavelmente jogado para debaixo do tapete.
Lucy e Thomas, por exemplo, representam lados opostos da pirâmide social. Ela é uma mulher rica nascida numa tradicional família de milionários. Não possui a necessidade de trabalhar, vive de herança e aplicações financeiras, pertence a um grupo social que ganha dinheiro até enquanto tira uma soneca depois do almoço. Ele é um pobretão nascido numa família de proletários que conseguiu cursar uma boa faculdade e entrar em Wall Strett. Através dos contatos certos no mercado financeiro, precisa ralar para levantar uma fortuna.
De um lado a esposa precisa do marido para conseguir alguma estabilidade emocional, de outro o marido precisa da esposa para entrar no universo dos milionários e fazer carreira. O jogo se revela claro e doentio, mas necessários para os dois lados. Parece coisa do século 18 ou 19, mas na verdade acontece na década de 1950.
Para exemplificar as consequências do matrimônio, Louis Begley faz uso de uma frase atribuída ao romano Marco Antônio (83 – 30 a.C.) que diz: "O mal que os homens fazem vive depois deles; o bem, em geral, é enterrado junto com seus ossos." Aquilo que o narrador enxerga é algo semelhante. Os ferimentos de uma relação amorosa se revelam maiores que os possíveis unguentos e fazem parte da história de cada casal.
Louis Begley nasceu na Polônia em 1933. Com 13 anos de idade emigrou com a família para a França e, logo em seguida, emigrou para os Estados Unidos onde vive até os dias de hoje. Grande parte de seus livros foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras, entre eles, "Infância de Mentira" (1992), "O Homem Que se Atrasava" (1994), "O Olhar de Max" (1995), "Sobre Schmidt" (1999), "Despedida em Veneza" (2000), "Schmidt Libertado" (2002), "Naufrágio" (2007), "Questão de Honra" (2009), "O Caso Dreyfus" (2010), "O Mundo Prodigioso Que Tenho na Cabeça" (2010) e "Schmidt Recua" (2014).

Em "Memórias de Um Casamento", o amor não está voando como elemento estéreo ao alcance de todos, mas como elemento atrelado às classes sociais. Uma realidade que necessita de um tipo de terapia que só o dinheiro pode pagar.

SERVIÇO
"Memórias de Um Casamento"
Autor – Louis Begley
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Rubens Figueiredo
Páginas – 198
Quanto – R$ 44,90 e R$ 30,90 (e-book)

FragmentoO outro lado da moeda é que, se ela fosse uma investidora de longo prazo ou uma apostadora com nervos de aço e tivesse tido o cuidado de se manter unida a Thomas, em vez de empurrá-lo para o divórcio por meio de uma tramoia realmente pra lá de vulgar, Lucy teria agido muito bem, em termos materiais. Muito provavelmente, Thomas teria continuado unido a Lucy, e ela, de modo inevitável, veria chegar sua vez de colher os lucros do guichê de apostas. No final das contas, Lucy teria "usado" Thomas, sua posição e seu dinheiro. É possível um casal continuar unido se um dos parceiros recusa ao outro aquilo o que foi ganho ou recebido de forma desigual? Não creio que seja e, se estou certo, a verdadeira pergunta deveria ser, num casal que não esteja num equilíbrio aproximado, "ascender" é, desde o começo, o propósito do parceiro mais pobre ou socialmente inferior. Era uma aposta que eu não podia ganhar nem perder, mas eu apostaria qualquer quantia que Thomas se casou com Lucy porque estava apaixonado por ela e não queria perdê-la, o que ele temia que fosse acontecer se não corresse o risco. No entanto isso não significava negar que, cravado no fundo dele, havia um forte instinto de autopreservação, que Thomas não correria o risco de casar com uma mulher com o estilo de vida dela, para usar uma expressão detestável que ainda não estava em uso na época, com os pressupostos de Lucy sobre aquilo que a vida lhe devia, e com sua fragilidade psicológica, se ela não tivesse bastante dinheiro. (De "Memórias de um Casamento", de Louis Begley)
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