LEITURA - Infância e pólvora
Há um bom tempo Marina Colasanti vinha dizendo que estava escrevendo suas memórias. Soltava informações esparsas pontuadas de segredos em entrevistas e palestras. Ao mesmo tempo em que criava suspense sobre o livro, revelava estar encantada com o mergulho no passado.
O livro, que levou 10 anos para ser concluído, acaba de chegar às livrarias lançado pela editora Record. ''Minha Guerra Alheia'' compreende as memórias de Marina Colasanti em seus primeiros dez anos de vida. De seu nascimento na Eriteia (atual Etiópia), colônia italiana na África, até o momento em que embarca no avião com destino ao Rio de Janeiro onde a família iria fixar residência.
Marina viveu uma infância nômade, pulando de cidade em cidade devido à profissão do pai, um fascista que adorava conflitos, e os perigos da guerra. Frequentando escolas esporadicamente, morando em quartos de hotéis e casas provisórias, teve uma infância imersa sob os fantasmas da Segunda Guerra Mundial.
''Minha Guerra Alheia'' poderia ser um relato angustiado de uma infância inundada de pólvora. Poderia ser um lamento de perdas e privações. Mas a escolha da autora é justamente o oposto. Olhar para a guerra do ponto de vista da vida cotidiana, das lembranças gravadas nos olhos de uma criança que não entende muito bem o que está acontecendo. Sabe que existe um perigo eminente, mas prefere dar atenção a tudo aquilo que acontece paralelamente à guerra.
A atenção recai sobre as lembranças mais cotidianas, detalhes da alimentação, das coisas da casa, das brincadeiras e passatempos, das roupas e dos objetos ao alcance das mãos no decorrer das estações. ''Minha Guerra Alheia'' pode ser considerada um tipo de memórias da vida privada de uma criança italiana vivendo numa Europa congestionada por conflitos bélicos.
A narrativa de Colasanti não fica vinculada exclusivamente ao passado. Em vários pontos ela divide suas impressões do passado ao lado de suas impressões do presente. Nesse processo, deixa evidente as diferenças existentes entre as lembranças e o olhar sobre as lembranças. E a certeza que se apresenta é de que as lembranças sãos maiores, mais ricas e interessantes do que aquilo que gerou as lembranças.
O grande mérito de ''Minha Guerra Pessoal'' está em revelar que, nos momentos mais difíceis e complicados da história, é possível encontrar instantes para a brincadeira, o humor e a diversão. E que as crianças seriam as especialistas nesse ímpeto em sobreviver pela alegria.
Com mais de 40 obras publicadas, Marina Colasanti emigrou para o Brasil com a família em 1948. Tinha 10 anos de idade. Abraçou o país e tornou-se jornalista de renome na imprensa nacional. Paralelamente, fez da pintura e da literatura seu jardim mitológico.
Serviço:
- Minha Guerra Alheia
Autor - Marina Colasanti
Editora - Record
Páginas - 288
Quanto - R$ 39,90
''Eu comecei a andar e, de repente, o chão tremeu embaixo dos meus pés. O chão tremeu e eu ouvia o estrondo das explosões, e desandei a correr, e via gente correndo ao meu redor mas só pensava em chegar em casa, e corria sobre aquele chão movediço, corria aos prantos, e se chamava por minha mãe era em silêncio porque não havia fôlego e eu precisava correr, atravessar a cidade, subir o caminho todo e não cair, não cair nas pedras, e chegar ao portãozinho de ferro, subir a escada e então, sim, gritar, gritar pela minha mãe, que ouvisse meu chamado acima das explosões e viesse me salvar.
Vimos o resto do bombardeio do alto da varanda do segundo andar. Eu já no colo, Arduino não mais preocupado em debochar do meu medo. O alvo da formação havia sido bem maior que o campo de treinamento. A carga dos aviões estava destinada a Erba, cidade a cerca de cinco quilômetros de Albavilla.
Ninguém suspeitava disso até então, mas a inteligência aliada fora informada de que havia em Erba um grande depósito subterrâneo de combustível. Daí a força das explosões, o tremor do chão. As labaredas subiam ao céu altíssimas desdobrando-se em rolos de fumaça, e os aviões se afastavam enquanto nossa família abraçada olhava impotente do alto da varanda.''
(Fragmento de ''Minha Guerra Alheia'', de Marina Colasanti)





