LEITURA - Infância à beira da morte
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A infância é um dos mais belos filtros da realidade. Por ser extremamente fino e límpido, tem a capacidade de impulsionar os olhos a ver as coisas como são. Nem mais, nem menos. Por outro lado, por estar muito próximo da realidade, o filtro acaba por, paradoxalmente, distorcer a clareza dos olhos.
Assim, em sua sede em tocar o mundo da maneira mais direta possível, a infância tropeça nas próprias pernas e cai. Bate o rosto na realidade, ferindo-se naquilo que acreditava ser cintilante e revelador. Um tombo que, dependendo do impacto, pode partir o filtro de maneira trágica.
Essa é a impressão que causa ''Não Tenho Medo'', romance do escritor italiano Niccol Ammaniti lançado pela editora Companhia das Letras. O filtro da infância em plena ação e, em seguida, seu estilhaçamento causado pelo impacto da queda, desvela a história de um garoto lutando para linha divisória entre o mundo infantil e o mundo adulto.
Vencedor do prêmio Viareggio 2001 e transformado em filme por Gabriele Salvatores, a obra retrata a história do pequeno Michele. Morando num vilarejo com meia dúzia de casas no sul da Itália, passa os dias brincando com as poucas crianças do lugar. Numa dessas brincadeiras, descobre um segredo que não poderá dividir com ninguém. Encontra um menino mantido em cativeiro dentro de um buraco.
Seduzido pelo achado, e ao mesmo tempo tomado pelo medo, Michele estabelece contato com o menino na tentativa de entender a situação. O sofrimento do outro tornar-se algo sedutor. Primeiro pela curiosidade, depois pelo impulso de partilha para a superação da situação. Mantendo o achado em segredo, ganha uma certa superioridade sobre as outras crianças, pois detém algo raro e intrigante num vilarejo de poucas novidades.
Nessa relação com o aprisionado, Michele vai lentamente descobrindo quem é o menino e quem o mantém naquela situação. Essa descoberta dá início a uma espécie de revolução silenciosa em sua relação com o mundo dos adultos. Marca a revelação de que o universo adulto é brutal e hostil. Marca também a compreensão de que o universo infantil é o único reduto de ar puro. Dessa maneira, opta pelo próprio isolamento no território da infância, de onde sairá apenas para não morrer.
Adotando a ótica de Michele, Niccoló Ammaniti, trabalha com uma narrativa que não está baseada apenas nos fatos, mas nos efeitos que eles imprimem no pensamento e nos sentimentos do garoto. Quando percebe, por exemplo, que os adultos mais próximos são os responsáveis pelo sofrimento do prisioneiro, procura digerir a idéia que amor e ódio podem coexistir num mesmo espaço, numa mesma pessoa
''Não Tenho Medo'' desenha um espécie de rito de passagem da infância para o universo adulto. Um desenho não muito agradável, mas extremamente revelador. Para vencer a brutalidade, que em várias situações está atolada em normalidade, o personagem utiliza a única arma que possui: a sinceridade de seus impulsos. Uma sinceridade que coloca em discussão as relações mais próximas e as mais distantes.
Niccol Ammaniti parece assinalar que o encontro do mundo infantil com o adulto sempre acontece através do amor e da dor. Seja de uma lado ou de outro, a dor está inclinada a superar o amor. Mesmo que o amor seja a origem da dor.
Serviço:
- ''Não Tenho Medo'' de Niccol Ammaniti, Editora Companhia das Letras, tradução de Roberta Barni, 212 páginas.


