LEITURA - Indignação de Glauber volta em livro
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domingo, 02 de janeiro de 2005
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Quando finalizava aquele que seria seu último filme, ''A Idade da Terra'', em 1980, Glauber Rocha mergulhou na edição do livro ''Revolução do Cinema Novo'', reescrevendo frases, cortando páginas inteiras e atrasando a edição da obra testamento do movimento que encabeçou. Trata-se da reunião de artigos e antigas entrevistas cuidadosamente ordenados pelo cineasta, assim como reflexões e notas biográficas escritas naquele mesmo ano de 1980. ''É o balanço de 20 anos de trajetória no cinema'', comenta o professor e estudioso de cinema Ismail Xavier, autor da introdução e responsável pela coordenação da nova edição de ''Revolução do Cinema Novo'', agora sob a chancela da CosacNaify (520 páginas, R$ 69,00).
Xavier participou do lançamento do livro este mês, no Espaço Unibanco de Cinema além de acompanhar a exibição de ''Câncer'', filme de Glauber, ele debateu o cinema novo e o cinema brasileiro contemporâneo ao lado do crítico e doutor em cinema Alfredo Manevy. Debate era uma das atividades preferidas de Glauber, embora aceitasse com dificuldade qualquer objeção às suas idéias: geneticamente indignado com o mundo que o cercava, o cineasta disparou farpas contra amigos e inimigos, como se pode observar na segunda parte de ''Revolução do Cinema Novo'', em que Glauber ataca Rogério Sganzerla, Julio Bressane e até Walter Lima Jr., assistente de direção em ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' e que era casado com sua irmã, a atriz Anecy Rocha.
''Ele pagou um alto preço, pois falava sobre tudo'', comenta Xavier. ''Mas, por outro lado, promoveu debates produtivos, como as discussões que manteve com Sganzerla.'' Apesar das curiosidades que ainda provocam essas diatribes, o ensaísta prefere se debruçar sobre a importância dos textos da primeira parte do livro, em que Glauber reuniu artigos publicados ao longo dos anos anteriores, além de entrevistas e debates. Estão aí textos fundamentais como os célebres ''Eztetyka da Fome'' (1965) e ''Eztetyka do Sonho'' (1971).
O primeiro, considerado a primeira síntese sobre o trabalho do cinema-novistas, foi direcionado aos cineastas europeus e situava o artista do Terceiro Mundo diante das potências colonizadoras. Ou seja, o confronto seria inevitável e ele faz o discurso sobre a não compreensão dos estrangeiros sobre a experiência terceiro-mundista. No segundo, apresentado na Columbia University de Nova York, Glauber dizia se recusar a falar de qualquer estética. ''A plena vivência não pode se sujeitar a conceitos filosóficos'', escreveu. A partir de textos como esses, observa Ismail Xavier, o cineasta abriu um importante canal de comunicação com o exterior.
É curioso comparar a obra que volta agora às livrarias com o ''Revisão Crítica do Cinema Brasileiro'', que Glauber escreveu quando iniciava a carreira (antes, por exemplo, de ''Deus e Diabo na Terra do Sol''). ''Trata-se da convocação do cinema novo'', observa Xavier. ''Ele faz um balanço histórico profundamente marcado pelo projeto cinematográfico que se iniciava. Já em ''Revolução...'', ele apresenta um balanço de um movimento que justamente naquela época, 1981, apontava para outra direção.''
No momento do lançamento, acontecia o ocaso do cinema novo e Glauber encontra as obras que fecham esse ciclo, como ''Cabra Marcado para Morrer'', de Eduardo Coutinho. O diretor de ''Terra em Transe'' revela, assim, uma preocupação com o mercado e com a continuidade do movimento. ''Essa preocupação com o lado prático era motivo de orgulho para ele'', observa Xavier. ''Glauber pensava na cinematografia brasileira e isso mostra o dilaceramento em que vivia: ao mesmo tempo em que trabalhava a favor de um caminho estético marcado pela ousadia, pela experimentação, ele também buscava algo mais amplo que buscasse difundir os filmes nacionais. Essa divisão interna é que gerava sua exasperação.''
Além da questão do cinema, Glauber vivia na época uma tensão com parte da esquerda, que não compreendeu seu elogio ao general Ernesto Geisel, que presidiu o País entre 1974 e 78. O cineasta apresentara uma interpretação particular sobre o papel dos militares no lento processo de abertura política e na dissolução da ditadura que ele próprio não conseguiu presenciar Glauber morreu em 1981.
Hoje, passados mais de 20 anos, Ismail Xavier acredita que o legado de Glauber, entre outros diversos fatores, seria a coesão. ''Seu cinema permaneceu fiel à estética que ele tanto defendia e que ainda deveria ser motivo de estudo'', afirma. No momento em que os cineastas debatem sobre a importância da criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), Xavier, que não se coloca como um porta-voz glauberiano, acredita ser necessária uma discussão estética. E nada mais útil que a visão contundente de Glauber Rocha.


