A vida é uma caixa de fósforos, pessoas dividindo o mesmo espaço. E todo mundo sabe que se alguém pegar fogo, toda a caixa se incendeia. Da mesma maneira, todos sabem que na cabeça de cada um reside, em estado latente, todos os componentes para o incêndio. No mínimo atrito, existe a possibilidade de fogo.
Para amenizar a situação, para que a existência da caixa não termine em incêndio, algumas soluções acontecem. Uma delas, por exemplo, prega que cada palito deve guardar o fogo em seu interior. Ou seja, os incêndios devem acontecer apenas no interior. Se por acaso avançarem para o exterior, a caixa inteira vira cinzas.
A família também pode ser uma caixa de fósforos. Todos seus membros têm, de maneira latente, os componentes necessários para incendiar-se. E basta uma faísca, ou um atrito, para que apareça o fogo que se propaga pela caixa toda.
Família como caixa de fósforos. Essa é a impressão que pode aparecer na mente do leitor após percorrer as páginas de ''Colina Negra'', romance do escritor inglês Bruce Chatwin (1940 - 1998) publicado pela Editora Companhia das Letras.
Não se trata de uma história inundada de labirintos e labaredas espalhadas pela narrativa. Apenas uma simples história onde o autor abre a caixa de fósforos de uma família e vai tirando palito por palito. Alguns queimados, outros chamuscados. Retira um a um até restarem dois, os gêmeos Benjamin e Lewis.
''Colina Negra'' narra a saga de uma família, através do século 20, isolada numa fazenda do interior da Inglaterra. Tudo começa quando Amos e Mary, ao se casarem, arrendam uma propriedade nos primeiros anos do século. Amos é um homem tosco e autoritário, Mary uma mulher meiga e sensível. Enfim, uma união fadada a conflitos e incêndios.
Nesse lugar distante do mundo moderno, o casal vive com dificuldades, dependendo dos frutos da terra. Primeiro nascem os gêmeos Benjamin e Lewis, em seguia Rebecca. Nos porões familiares, a mãe protege os meninos e o pai protege a menina. Aos poucos, os membros vão abandonando a caixa de fósforos. Alguns morrem, outros fogem para o mundo.
No final, restam apenas os gêmeos, que mantém uma relação muito estreita. O mundo passa a se resumir em dois irmãos que não conseguem viver separados. Não se casam, muito menos se relacionam com o sexo oposto. Representam simplesmente os dois últimos membros de uma família a um passo da extinção.
Benjamin e Lewis levam uma vida à parte do mundo. Não precisam correr o mundo para saber que acontece. Muito menos buscar informações através de qualquer meio. Os acontecimentos vêm até onde estão isolados. Sem deixarem a fazenda, são visitados por guerras, desenvolvimento industrial, especulação imobiliária, impasses sociais, etc. Até mesmo as transformações culturais e tecnológicas ocorridas ao longo das décadas batem na porta uma a uma.
Os dois tornam-se os únicos sobreviventes dos incêndios na caixa de fósforos. Sobraram graças a capacidade de manter o fogo recolhido no interior do corpo e da mente. Não se tornam maiores nem menores do que os palitos que viraram carvão e cinza. Tornam-se apenas os últimos palitos da caixa esperando pela chuva.

Serviço:
- Colina Negra, de Bruce Chatwin. Editora Companhia das Letras, tradução de Luciano Machado, 344 páginas, R$ 47,50

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