LEITURA - Incêndio no paraíso
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de junho de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A classe média, em seu confortável consumo, seria capaz de fazer uma autêntica revolução? Seria capaz de colocar fogo em seus carros do ano? Retirar seus filhos de escolas particulares e cancelar planos de saúde? Abandonar as viagens de turismo no final de ano? Seria capaz de jogar o freezer no lixo e furtar chocolate no supermercado?
Difícil. Mas na ficção do escritor J. G Ballard a resposta é afirmativa. Em seu novo romance lançado pela Editora Companhia das Letras, ''Terroristas do Milênio'', a classe média assume o papel de um ''novo proletariado'' capaz dos atos mais revolucionários.
Tudo começa quando profissionais liberais moradores de um condomínio em Londres decidem, incomodados pela falta de sentido de suas vidas, chutar o mundo classe média em que vivem. Abandonam seus empregos e deixam de pagar taxas e impostos. Colocam no lixo todos seus bens supérfluos. Para se protegerem da polícia, erguem barricadas virando os próprios carros e incendiando as próprias casas.
A cidade e as autoridades assistem à rebelião com curiosidade. Simpatizantes do movimento começam a engrossar a ''revolução''. Entre eles está o pacato psicólogo David. Mudando-se para o condomínio ele passa a fazer parte da cúpula do movimento. Entre os líderes estão um médico de crianças terminais com câncer, uma professora universitária de cinema, uma química fissurada em bombas e um pároco desprovido de fé.
O grupo realiza atentados terroristas em vários cantos da cidade. Os alvos são cinema e vídeo locadoras que exibem filmes de hollywood, concursos de animais de estimação, agência de turismo, etc. Tudo que capaz de gerar uma realidade medíocre e uma satisfação imbecilizada. O objetivo não é ferir ninguém, mas ''acordar'' a classe média de sua alienação babaca.
O problema é que, ao lado desses atentados pacifistas, começam acontecer violentos atentados na cidade. Explosões em lugares imprevistos e assassinatos sem sentido. Num desses atentados, uma das vítimas é, por acaso, a ex-mulher de David.
Assim, ao mesmo tempo que David participa ativamente da ''revolução'' e dos atentados ''pacíficos'', empreende uma investigação para encontrar os responsáveis pela morte da ex-esposa. Aos poucos, associações entre os dois tipos de atentados aparecem. E acaba percebendo que a classe média começa sentir gosto pela violência, uma espécie de velada psicopatia do homem urbano.
Em ''Terroristas do Milênio'', Ballard trabalha com uma ironia que beira o sarcasmo. Transforma a insatisfação imobilizadora da classe média num circo de atrações absurdas. Cultuado pelos britânicos como um dos maiores escritores de língua inglesa vivo, Ballard possui uma obra eclética. Da ficção científica, passando pelo surrealismo, pelo memorialismo até chegar no erotismo bizarro. Alguns de seus livros foram transformados em filmes por diretores como David Cronenberg. Embora seja considerado inglês, nasceu em Xangai, China, em 1930. Em ''Terroristas do Milênio'', misturas elementos distintos como a crítica cultural e o romance policial.
No romance, narrado por David, os episódios acontecem a partir de uma lógica aparentemente ingênua. Em seus desdobramentos, a ingenuidade se dissipa como um nevoeiro desprovido de esperança. Nesse processo, os pacíficos terroristas, começam a sentir necessidade de mortos.
A violência, nesse contexto, torna-se sedutora. E quanto mais aleatoriedade possuir, mais sentido passa a ter. Isso porque não pode ser explicado diretamente, apenas através de um labirinto tortuoso e escorregadio.
''Terroristas do Milênio'' sugere que, na época em que vivemos, os homens da classe média desejam mudar suas vidas, desejam transformar o mundo num mundo melhor. Mas não muito. Uma simples ''mudançinha'' torna-se suficiente. Tipo substituir a palavra ''caridade'' pelo termo ''responsabilidade social''.
Serviço:
- Livro ''Terroristas do Milênio'', de J. G. Ballard. Editora Companhia das Letras, tradução de Celso Nogueira, 328 páginas, R$ 44,00.


