LEITURA - Impiedoso vazio
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Com todo seu peso opressivo, nem sempre o passado faz os homens viverem o sorriso do presente. O passado até pode empurrá-los a um canto escuro para vê-los chorar como crianças indefesas diante do agora, mas nem sempre abarca o caos da contemporaneidade. Algo que quase ninguém sabe o que parece ser, ou melhor, poucos arriscam ler os acontecimentos no momento em que eles ocorrem.
Entre esses poucos, o escritor norte-americano Don DeLillo merece lugar de destaque. Sua literatura é baseada no tempo em estado vigente. No aqui e agora dos fatos e acontecimentos que atordoam mentes atentas com sua fúria realista. Seu novo romance, ''Cosmópolis'', focaliza o impasse da riqueza que por um lado infla o ego dos milionários, e por outro resseca a existência em qualquer parte do planeta.
Lançado pela Companhia das Letras, ''Cosmópolis'' é um rápida epopéia sobre a decadência que o poder monetário arrasta consigo, apesar de seus múltiplos disfarces e falácias enganosas. Onde a virtualidade do dinheiro, numa época em que cibercapital comanda a economia, torna-se tão palpável como a voz de uma orquídea.
Em ''Cosmópolis'' Don DeLillo retrata um dia na vida de Eric Packer, um jovem milionário de Nova York. De seu escritório, opera fortunas em bolsas de valores mundo afora através de uma rede de computadores. Mas o dia retratado não é um dia normal, com milhões de dólares engordando sua conta alheio a vidas dos habitantes do planeta.
Nesse dia, ao acordar, Eric resolve cortar o cabelo. A bordo de sua luxuosa limusine, fica preso num engafamento. O que seria um trajeto percorrido em meia hora, dura o dia todo. Engarrafamento provocado pela presença do presidente na cidade, pelo funeral de um famoso cantor de rap e, o pior, uma manifestação antiglobalização.
A bordo de sua limusine, cercado de seguranças, assessores e computadores, realiza negócios nas bolsas de valores de várias partes do mundo ao mesmo tempo que acompanha a agitação das ruas. Nesse processo, seus dólares vão escoando ralo abaixo devido a um colapso do sistema financeiro globalizado. Paralelamente, seus princípios e valores também começam a ir ralo abaixo. Provocando assim, tanto uma queda de poder, vinculada à riqueza, quanto uma queda moral, vinculada às certezas existências.
Em um único dia, Eric caminha da mais completa plenitude para o mais impiedoso vazio. As máscaras vão ficando pelo caminho, uma a uma, e, de certa maneira, ele sente-se bem nesse colapso. Segue em direção ao fim completo como se assistisse a um filme em que não é mais o grande protagonista, mas um figurante tomando consciência da ilusão de seu papel.
A narrativa de DeLillo não é ordenada na lógica de causa e efeito. Ela segue o ritmo do caos, atropelando encaminhamentos e acontecimentos como se invertesse a razão da velocidade. Como se a junção das peças da existência fosse completa apenas quando uma arma é apontada para nossas cabeças e alguém diz que vai puxar o gatilho.
Nascido em 1936, em Nova York, Don DeLillo é uma grandes vozes da literatura norte-americana contemporânea. Romances de sua autoria, como ''Ruído Branco'' e ''Submundo'', são obras que oferecem ao leitor uma jornada através de um conteúdo e de uma forma que dialogam com a realidade friamente, sem bajulações, fazendo da ficção um espelho potencializador do real.
A abstração do dinheiro movimentado pela economia globalizada, que se tornou a maior abstração a virtualidade do mundo atual, é focalizada em ''Cosmópolis'' como um jogo onde os vencedores ganham muito mais de montanhas de dinheiro. Ganham o poder de ver o mundo, bem como a si próprio, como homens acima de todos os outros, acima de qualquer coisa. Seja ela o que for.
Serviço:
- ''Cosmópolis'' de Don DeLillo, Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 198 páginas, R$ 30,00.


