Em 14 de junho de 2003, o escritor chileno Roberto BolaÀo estava num hospital de Barcelona aguardando os preparativos para um transplante de fígado. Com o órgão em frangalhos há tempos, o transplante era sua única possibilidade de vida.
Após uma longa espera, estava prestes a ganhar um fígado novo. Mas os caprichos do destino colocaram um ponto final em suas esperanças. Antes da cirurgia, BolaÀo foi abatido por várias complicações que provocaram sua morte. Havia acabado de completar 50 anos de idade.
A morte de Roberto BolaÀo se parece muito com a imagem de náufragos que enfrenta todo tipo de adversidade em alto-mar e quando finalmente colocam os pés na areia da praia, deixam de respirar. Até os 40 anos de idade, BolaÀo havia publicado praticamente um único livro. Nos últimos dez anos de vida, de 1993 a 2003, publicou nada mais nada menos que 16 obras - englobando contos, poesias, novelas e romances - e deixou outras inacabadas.
BolaÀo nasceu em Santiago do Chile em 1953, onde viveu até adolescência, quando se transferiu com a família para a Cidade do México. Lá, ao lado do poeta Mario Santiago Papasquiaro, fundou o Movimento Infrarrealista que agregava um punhado de jovens escritores radicais que questionavam a literatura ''oficial'' mexicana, representada principalmente a figura de Octávio Paz. Na sequência passou uma temporada nos Estados Unidos e no Chile, onde foi preso e expulso do país. Em seguida, fixou então residência na Espanha, na região da Catalunha.
Na Espanha trabalhou nos mais variados empregos. De vendedor de bijuterias à guarda noturno. De balconista de supermercado à recepcionista de camping. Quando teve condição de se dedicar exclusivamente à literatura, aos 40 anos de idade, escreveu aproximadamente dois livros por ano. Gravou seu nome como um dos grandes autores da literatura latino-americana contemporânea. Quando estava em ampla e madura produção, o fígado entrou em colapso e silenciou sua literatura.
Um dos primeiros livros que escreveu, ''A Pista de Gelo'', publicado aos 40 anos de idade, acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se de um romance narrado a partir de três vozes. Cada uma delas apresenta uma visão da história, uma parte dos fatos. Ao leitor cabe a tarefa de montar as peças, ajustar os encaixes, para construir os acontecimentos.
O ponto de ligação das vozes totalmente independentes está na cidade em que reside provisoriamente, um balneário do litoral catalão chamado simplesmente Z. Remo Morám é um chileno que, apesar de suas pretensões literárias, ganha dinheiro como dono de bares e lojas de bijuterias; Gaspar Heredia é um poeta mexicano que vive de bicos e descola uma vaga como vigia noturno de um camping decadente; Eric Rosquelles é espanhol que atua como homem de confiança da prefeita socialista do lugar.
Os três, que não possuem nenhuma relação entre si, ao apresentarem seus relatos, compõem uma terceira narrativa. Um relato que apenas o leitor tem acesso, como se vestisse a máscara de detetive. Essa é exatamente uma das características da prosa de BolaÀo, colocar elementos do gênero policial no interior da narrativa de maneira livre e apenas estrutural. Em sua obra mais representativa, ''Os Detetives Selvagens'' esse recurso é levado à mais alta potência.
Em ''A Pista de Gelo'', Eric Rosquelles se apaixona por uma jovem patinadora. Para tentar seduzi-la, desvia recursos da prefeitura para construir uma pista de gelo secreta. Tudo para que a patinadora tenha condições de treinar durante o verão. O fato permanece oculto até o dia em que um corpo é encontrado esfaqueado no centro da pista secreta.
Para elucidar os fatos, cada uma das três vozes, Eric, Remo e Gaspar apresentam suas respectivas relações com os possíveis assassinos. Eric pela sua indecorosa construção da pista de gelo, Remo por ser amante da patinadora e Gaspar por conhecer todos os malucos que vivem no camping. Na realidade, o assassinato, e a posterior descoberta do culpado, é um pequeno elemento dentro da narrativa. A intenção de BolaÀo é narrar uma história maior, toda ela repleta de personagens que vivem de sonhos frustrados. Figuras que andam sem destino, sempre tentando entender qual a melhor direção a seguir.
Essas figuras, inspiradas a partir da loucura de pessoas comuns, formam um retrato do mundo atual. Não que BolaÀo tenha qualquer intenção de apenas retratar sua época, mas simplesmente realizar o desenho de pessoas que estão deslocadas do mundo como ele se apresenta. Um tipo deslocamento estreitamente vinculado à todo tipo de ilusão perdida ou mesmo sequestrada.
A própria estrutura narrativa utilizada por BolaÀo em ''A Pista de Gelo'' acompanha esse movimento de deslocamento. Cada personagem oferece um pedaço desse desajuste para compor uma íntima normalidade onde os loucos nem sempre são os outros.


Fragmento de ‘‘A Pista de Gelo’’, de Roberto Bolaño
  A manhã seguinte foi bastante atarefada: a água entrou na barraca e molhou a nossa roupa e os sacos de dormir. Quando fomos para a estação estávamos ensopados. Ao chegarmos, já não chovia. Do outro lado das linhas férreas, num pomar, vi um burro. Estava debaixo de uma árvore e de vez em quando soltava um zurro, que fazia todos os viajantes que esperavam nas plataformas se virarem para olhá-lo. Então, como que vomitados por uma nuvem negra, numa extremidade da estação apareceram dois policiais e um guarda civil. Pensei que vinham nos prender. Com o rabo de olho eu os vi avançar lentamente, com pachorra, em nossa direção, as mãos prontas para sacar as armas. Aquele bicho e eu nos parecemos, Caridad disse com voz sonhadora. Somos estrangeiros em nosso próprio país. Eu gostaria de ter lhe dito que estava enganada, que ali o único a quem podiam aplicar a lei dos estrangeiros era eu, mas não abri a boca. Enlacei-a suavemente pela cintura e esperei. Caridad, pensei, era estrangeira para Deus, para a polícia, para si mesma, mas não para mim. A mesma coisa se podia dizer do burro.
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Serviço:
- Livro ''A Pista de Gelo'', de Roberto BolaÀo. Editora Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 200 páginas, R$ 37,00

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