LEITURA - Ilusão ao meio-dia
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de novembro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Ela tinha apenas 24 anos quando publicou seu primeiro romance, ''Dentes Brancos''. A obra caiu nas graças dos leitores ingleses e em pouco tempo superou a marca de mais um milhão de exemplares vendidos. Algo pouco comum para uma escritora iniciante. Paralelamente, no ano de 2000, abocanhou alguns prêmios literários significativos de língua inglesa e passou a ser tratada a pão-de-ló pela crítica especializada.
Zadie Smith é seu nome. Filha de pai inglês e mãe Jamaicana, nasceu em Londres em 1975 e fez da cidade o grande cenário de suas histórias. Antes de se dedicar à literatura ganhava a vida dando aulas de redação. ''Dentes Brancos'', publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2003, trazia como característica básica um retrato do multiculturalismo presente na cidade de Londres dos dias atuais.
Narrava a história de amizade entre um inglês e indiano ao longo dos anos num subúrbio londrino. O inglês casa-se com uma jamaicana testemunha-de-jeová, o bengalês com uma africana mulçumana. Os filhos dos dois casais, seguem, cada um deles, caminhos completamente diferentes. Envolvendo religiões distintas, preferências étnicas novas e opções morais independentes. Uma situação que dá origens aos mais variados conflitos e, ao mesmo tempo, pede uma boa dose de tolerância. Zadie Smith trabalhava com o tema usando alguns instrumentos da ironia e do humor.
Após lançar ''Dentes Brancos'', Zadie escreveu ''O Caçador de Autógrafos'', publicado recentemente pela Editora Companhia das Letras. Também ambientado num subúrbio de Londres, o romance realiza um novo retrato da pluralidade étnica e cultural do ambiente urbano cosmopolita. Narra a trajetória de um sujeito chamado Alex-Jin e de seus amigos mais próximos.
O jovem Alex-Jin é filho de pai chinês judeu e mãe inglesa riponga. Sua namorada é negra e possui como hábito raspar a cabeça. Seus grandes amigos formam um grupo eclético. Um deles é afro-americano que passa os dias fumando maconha e tentando experiências místicas com o estudo da cabala. Outro é, empurrado pelo pai, um futuro rabino contra a própria vontade. O terceiro é um corretor de seguro que possui a capacidade de vender suspensórios para cobra. Todos possuem um ponto em comum: não estão completamente satisfeitos com a vida que levam.
Alex-Lin ganha a vida de maneira exótica. É colecionador e comerciante de autógrafos. Atuando em transações de compra e venda de autógrafos de personalidades importantes detentores de legiões de fãs, vive do comércio da idéia de desejo de fetiche alheio. Seu grande sonho é conseguir o autógrafo de uma célebre atriz de cinema do passado chamada Kitty Alexander, figura que cultivou a prática não dar autógrafos.
Para alimentar seu sonho, Alex-Lin envia diariamente pelo correio, ao longo de 15 anos, uma carta solicitando à atriz um autógrafo. Essa prática torna-se uma espécie de ritual diário e persistência e esperança. Até que um belo dia aparece em sua caixa postal uma foto autografada de Kitty, enviada pela própria atriz aos 75 anos de idade. Um objeto que vale milhões.
O problema reside no fato de que quando recebe o envelope, Alex-Lin está viajando sob efeito de ácido lisérgico. Assim, seus amigos, e até ele próprio, colocam em dúvida a veracidade do autógrafo. Ninguém tem certeza tratar-se de realidade ou alucinada viagem.
A estrutura narrativa criada por Zadie Smith em ''O Caçador de Autógrafos'' é dividida em duas partes. Na primeira, a história do protagonista é apresentada, em capítulos, a partir de um quadro cabalístico de cunho judaico. Na segunda, a trajetória do protagonista é apresentada, igualmente em capítulo, a partir das etapas de princípios zen-budistas.
Uma estrutura como a proposta pela autora, deveria deter uma forma sedutora e instigante em seu interior. Mas a experiência da leitura não reforça essa tese. As amarrações estabelecidas por Zadie se revelam frágeis, assentados em lugares que não suportam o peso da vasta conexão de idéias. Funcionando muito mais como moldura do que como alicerce, as amarrações assumem a forma de uma ousadia intelectual, uma grande sacada, mas sem a profundidade compatível com a idéia.
Outra característica de literatura de Zadie, além miscigenação étnica e cultural, está em reproduzir a diversidade da oralidade presente no cotidiano. Seu texto incorpora as formas utilizadas nas conversas onde cada pessoa possui um jeito de dizer frases e palavras, levando em conta até a variação dos sotaques. Algo que representa um desafio aos tradutores.
Tanto em ''O Caçador de Autógrafos'', como em ''Dentes Brancos'', Zadie Smith utiliza a opção de prolongamento da narrativa. A concisão não faz parte de seus planos na condução da história apresentada. Até a possível redenção de Alex-Lin, protagonista de ''O Caçador de Autógrafos'', é estendida no sentido de que a revelação simplesmente não existe. Ela seria apenas uma ilusão da qual ninguém está disposto abrir mão. Mesmo estando debilitada de sentido, em plena luz do meio-dia.
Serviço:
- Livro ''O Caçador de Autógrafos'', de Zadie Smith. Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 388 páginas, R$ 48,00.


