''Por que as pessoas, quando têm a vida ameaçada, passam a ser mais felizes do que antes?''
Essa dúvida incomodou por muito tempo o médico paulista Drauzio Varella. Trabalhando durante década com doentes terminais de câncer e AIDS, conclui que a questão era um verdadeiro mistério. Encontrou respostas possíveis, mas não definitivas.
O assunto delicado e emotivo é tema do novo trabalho de Varella, ''Por Um Fio'', lançado pela Editora Companhia das Letras. No livro, escrito ao longo de 20 anos, Drauzio narra histórias de dezenas de pacientes que enfrentaram a eminência da morte e fizeram da situação um divisor de águas.
Varella ganhou popularidade com a publicação de ''Estação Carandiru'' (1999), obra em que apresentava o universo dos detentos do maior presídio do Brasil, onde trabalhava como voluntário. Logo em seguida passou a ser requisitado pela facilidade em explicar procedimentos médicos de maneira simples e honesta.
''Por Um Fio'' é uma coletânea de histórias de pessoas reais que, diante de uma doença incurável, transformam a percepção de mundo que tinham em direção à uma honestidade para com a vida. Permeando as histórias, Drauzio Varella realiza uma série de reflexões sobre as transformações e sobre a própria medicina. Mais especificamente sobre a incapacidade das ciência médica, bem como os doutores, em compreender os doentes de maneira ampla e humanitária.
Em seu enfoque, a obra aborda duas questões essenciais, de maneira clara e direta. A primeira seria o fato de as pessoas abatidas por uma doença fatal tenderem a conceder um valor que nunca havia concedido antes. Valorizando cada detalhe, cada gesto, cada copo d'água como se fosse o último. Uma prática que deveria ser adotada por toda a vida ganha corpo apenas com a proximidade da morte.
A segunda questão colocada por Drauzio, como especialista em pacientes terminais de câncer, é a necessidade de não ver a medicina como uma ciência cujo objetivo é a cura. Na verdade ela seria muito mais uma arte do alívio do sofrimento humano, levando-se em conta que a grande maioria das doenças é incurável e pode apenas ser amenizada. Assim, a qualidade de vida dos enfermos, e não a cura em si, adquire um valor gigantesco.
A grande virtude está em apresentar ao leitor uma série de reflexões sobre o universo da doença e do doente, a partir de um ótica extremamente humana carregada se simplicidade. A partir de histórias de pessoas diante da proximidade da morte, revela que suas vidas, bem como a vida das pessoas próximas, tornam-se mais importante que a própria doença, que a própria morte.
Em seu relato, Drauzio é extremamente prudente e comedido em falar sobre a morte voluntária. Uma discussão polêmica sobre a opção do doente, quando atinge a consciência de sua doença, pelo não prolongamento da vida confinada no sofrimento. A delicadeza e subjetividade utilizadas deixam evidentes a máxima de que ''cada caso é um caso'' precisa ser pensada, sentida e refletida.
Embora focalizando a morte a cada página, ''Por Um Fio'' é um livro sobre a vida. Mas especificamente sobre a capacidade que a vida tem de converter tanto mar em deserto como, acima de tudo, deserto em mar. Faz lembrar que o ser humano pode não apenas mudar a vida a partir da morte ou melhor, diante de sua fatal proximidade , mas mudar a vida a partir da vida.

Serviço:
- Por Um Fio, de Drauzio Varella, Editora Companhia das Letras, 224 páginas, R$ 32,00.

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