No último dia 26 o coração de Jim Harrison deixou de funcionar. O escritor norte-americano estava com 78 anos e uma generosa camada de gordura abraçada ao coração. O ataque cardíaco foi considerado decorrência natural de seus excessos gastronômicos.
Jim Harrison nasceu em 11 de dezembro de 1937. Passou grande parte da vida em fazendas da região norte dos Estados Unidos na fronteira com o Canadá. Suas histórias estão carregadas de elementos naturais, da vida rural, de relações familiares, da cultura da caça e da pesca. Em seus romances e novelas as personagens comem muito e bebem demais. Há quase uma fé na comida e na bebida como prazer necessário e intransferível.
A obra de Jim Harrison ganhou popularidade na década de 1990, quando começou a ser adaptada para o cinema. Entre os filmes baseados em seus romance e novelas estão "Lendas da Paixão" (com Brad Pitt, Anthony Hopkins e Julia Ormond), "Wolf" (com Jack Nicholson e Michelle Pfeiffer), "Revenge" (com Kevin Costner e Anthony Quinn) e "Carried Away" (com Dennis Hopper e Amy Irving).
Deixou 21 livros de ficção e 18 volumes de poesia. No Brasil nenhum de seus livros de poesia foi publicado, mas entre novelas e romances foram lançados cinco títulos: "Lendas de Outono" (editora 34, 1993), "Dalva" (editora 34, 1995), "Vingança" (editora 34, 1996), "Atos de Amor" (Companhia das Letras, 1996) e "O Feiticeiro" (Companhia das Letras, 1998).
Dois acidentes marcaram a vida do escritor. O primeiro ocorreu quando ele tinha apenas sete anos de idade. Numa briga de rua, uma menina feriu seu olho esquerdo com um caco de vidro. A partir desse dia, cego de um olho, passou a contar apenas com a visão do olho direito. O segundo acidente, mais simbólico, ocorreu na adolescência. Quando participava de uma caçada, caiu de um penhasco e fraturou um punhado de ossos. Obrigado a ficar na cama por várias semanas, começou a escrever a história de um sujeito que acompanha a trilha de um coiote na mata. Foi sua primeira experiência com a escrita e aquela abriu as portas da literatura.
Seu romance mais intrincado, "Dalva", possui uma alegórica referência ao Brasil. A personagem principal, Dalva, descreve a origem de seu nome da seguinte maneira: "Eu me chamo Dalva. Um nome estranho para alguém que nasceu no Meio-Oeste dos Estados Unidos, mas a explicação é simples. O irmão mais velho do meu pai foi uma vítima da rebelião e das revistas de aventura: engajou-se na marinha mercante, foi garimpeiro e, finalmente, formou-se em geologia. Nos anos finais da Grande Depressão, esteve em algum ponto do interior do Brasil de onde voltou para a nossa fazenda, depois de dissipar no Rio quase tudo que ganhara, trazendo alguns presentes, entre eles vários discos de 78 rotações com as canções brasileiras do período. Uma delas se chamava 'A Estrela D’alva', e meus pais adoravam. Naomi, minha mãe, conta que nas noites quentes do verão ela e meu pai punham o disco na vitrola e ficavam dançando na varanda da fazenda."
A música em questão, originalmente intitulada "As Pastorinhas", é uma composição de Noel Rosa e Braguinha. Criada pela dupla em 1934, tornou-se uma popular marcha-rancho de carnaval gravada por Silvio Caldas em 1937.
A literatura de Jim Harrison sempre foi arejada pelos grandes espaços naturais. Vales e campos, com seu universo de plantas e animais, fazem parte de suas narrativas como verdadeiros personagens. O ambiente familiar do universo rural está na base de suas histórias. O calor do sol e o frio da neve fazem parte do coração das pessoas tanto quanto a família e as paixões. A miscigenação entre índios e imigrantes europeus aparece como algo natural nas relações afetivas e, ao mesmo tempo, vítima de preconceito nas relações sociais.
Certa vez, numa entrevista, Jim Harrison foi indagado sobre qual teria sido seu grande momento em sua existência. Sem pensar muito respondeu: "Meu momento favorito na vida é quando dou ao meu cachorro um osso fresco." Em sua percepção, a felicidade de um cão pode ser tão importante quanto toda e qualquer felicidade.
Pode ser tão importante quanto o sol que acabou de nascer, quanto o filho que acabou de sorrir, quanto o galo que acabou de cantar, quanto a mulher amada que acabou de acordar, quanto a comida que acabou de ser servida, quanto o outono que acabou de chegar, quanto a cerveja que acabou de ser aberta, quanto a gordura que reveste o coração dos velhos, quanto as pessoas que deixam de fazer parte de nossas vidas e mesmo assim estão presentes em algum quintal da memória. Algo como errar nas horas vagas e acertar quando ninguém espera.

Serviço:
"Lendas de Outono"
Autor – Jim Harrison
Editora – 34
Tradução – Angela Mariani
Páginas – 80
Quanto – R$ 38

"Dalva"
Autor – Jim Harrison
Editora – 34
Tradução – Sergio Flaksman
Páginas – 304
Quanto – R$ 42

"A Vingança"
Autor – Jim Harrison
Editora – 34
Tradução – Angela Mariani
Páginas – 208
Quanto – R$ 49

"Atos de Amor"
Autor – Jim Harrison
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Beth Vieira
Páginas – 184
Quanto – R$ 37

"O Feiticeiro"
Autor – Jim Harrison
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Marcos Maffei
Páginas – 264
Quanto – R$ 47,90

Joseph achou que a cabeça estava prestes a explodir e se pôs a andar em círculos pela sala, evitando olhar para Catherine, que começava a roncar de leve. - Eu sei que tem razão, entende? Mas a gente pode saber o que é o certo e continuar paralisado. Eu sabia, já no outono passado, quando fui procurar o coiote e fiquei sentado horas e horas, esperando o bicho. Vinte anos atrás, eu estive naquele mesmo lugar com meu pai, caçando coelho. E, de repente, me perguntei: "O que foi que eu fiz nesses vinte anos?". Andei me escondendo, foi essa a sensação que tive, mas ninguém consegue se autoconvencer a sair do esconderijo. Isso me passou pela cabeça feito um relâmpago. Feito a mancha marrom do coiote que levou a galinha, mas tão rápido que não me convenceu. Como você falou, eu era uma vaca ruminando nos quatro estômagos. - Do que é que vocês estão falando? Catharine acordara. Pôs a saia e foi, sonolenta, até o banheiro. De cara franzida, como irritada por ter sido acordada muito cedo para a escola. - O que eu estava querendo dizer, em grande parte, olha, eu não estou dizendo para você se casar com Rosealee. Não. Eu não disse isso – o médico estava agitado e socou o fundo da garrafa na mesa para enfatizar o discurso. – Não, eu não disse isso. Só que eu acho que você não devia ficar arrastando essa sua ideia de castigo que eu não sei bem qual é. Você pode estar achando que ela castigou você, o que não é verdade. Ela só está viva, com uma honestidade da qual você é incapaz. Parece que você está girando uma bola de golfe na mão, tentando decidir que lado é qual. Você tem que parar de pensar que levou um fora na vida. É isso que estou querendo dizer. Se quer casar, case, se não que, diga isso a Rosealee, diga, eu não posso casar com você. Mas pare de ficar zanzando de um lado para outro, se torturando. Catharine saiu do banheiro e olhou pela porta de tela. - Vai chover – virou-se para eles, ainda sem blusa num sutiã. – Não se incomodem comigo. Sei que estão tendo uma conversa importante. Os bicos eram pequenos, vermelho-escuros, quase infantis nos seios modernos. Pegou uma Coca na geladeira, vestiu a blusa, sentou no balanço da varanda e começou a cantarolar. Os dois pararam de falar para olhar para ela pela janela, talvez querendo desacreditar daquela presença, mas o balanço rangia e sua voz misturava-se e ampliava o zumbido das abelhas. (De "Atos de Amor", de Jim Harrison)
mockup