Geralmente os doutores olham para a literatura fantástica como se ela fosse o patinho feio nas letras. O leitor comum, por outro lado, geralmente olha para ela como se fosse um belo cisne.
O fato é que, nas duas últimas décadas, a literatura fantástica se transformou no gênero mais popular entre os leitores e um lucrativo produto da indústria editorial. Esse impulso se tornou visível com o sucesso da saga de Harry Potter, da escritora britânica J. K. Rowling, constituída de sete volumes (o primeiro lançado em 1997). Entre várias obras que antecedem o fenômeno, destaca-se a trilogia de "O Senhor dos Anéis" de J. R. R. Tolkien (1892 – 1973) que começou a ser publicada em 1953.
Hoje as livrarias estão abarrotadas de séries de literatura fantástica, grande parte delas voltada ao público jovem - um universo que percorre mágicos, mutantes, vampiros, mundos paralelos e seres de outros mundos. Numa época onde a razão e a lógica se afirmam como método primordial, a ficção mais consumida é justamente aquela impulsionada pela imaginação. Parece até ironia.
Ao longo do tempo a literatura fantástica teve ferrenhos defensores entre os escritores consagrados pelos doutores. Dois exemplos são os argentinos Jorge Luis Borges (1899 – 1986) e Adolfo Bioy Casares (1914 – 1999). Os dois chegaram a organizar várias antologias de ficção fantástica, mas apenas um vigou.
Segundo a lenda, certa noite estavam em Buenos Aires Luis Borges, Bioy Casares e a poeta Silvina Ocampo (também argentina) conversando sobre as histórias fantásticas de que mais gostavam da literatura universal. Logo perceberam que se reunissem num volume todas essas histórias que adoravam, teriam uma antologia exemplar.
E assim aconteceu. O livro foi publicado em 1940 com o título "Antologia da Literatura Fantástica". A segunda edição só foi lançada em 1965, devidamente revista e ampliada por Bioy Casares que inseriu novos contos, entre eles "Casa Tomada" de Julio Cortázar. O livro se tornou uma referência nos países de língua hispânica.
A edição brasileira de "Antologia da Literatura Fantástica" organizada por Borges, Casares e Silvana acaba de ser lançada pela editora Cosac Naify. Traz um painel abrangente do gênero em várias épocas, mas também deixa claro a preferência dos organizadores pela literatura fantástica de língua inglesa. É possível também perceber o trio puxando a brasa e a sardinha para autores argentinos de pouca expressividade.
São 80 histórias com as mais diversas atmosferas. Estão presentes escritores consagrados como H. G. Wells, Edgar Allan Poe, Giovanni Papini, Eugene O’Neill, Rudyard Kipling, James Joyce, Franz Kafka e Jean Cocteau. Também estão presentes escritores nunca vistos, alguns deles até mesmo desprovidos de biografia, fato que levanta a possibilidade de que Borges e Casares tenham inventado autores para textos de suas próprias autorias. Entre as histórias que não estão entre as escolhidas, inexplicavelmente, estão aquelas criadas pelo alemão E. T. Hoffman (1776 – 1822), uma referência do gênero.
Entre os textos ocidentais mais antigos, está um fragmento de "Satíricon", clássico latino de Caio Petrônio (século 1 d.C.) onde aparece um dos primeiros registros da figura do Lobisomem, a lenda do homem que se transforma em lobo em noite de lua cheira. No relato de Petrônio, o monstro é comparável ao chupa-cabra contemporâneo que estraçalha ovelhas em busca de sangue.
A grande surpresa de "Antologia de Literatura Fantástica" é a presença de textos de autores chineses de várias dinastias. Essa é visivelmente uma contribuição de Borges, que defendia a ideia de que foram os chineses os pioneiros da literatura fantástica. O sonho como elemento dúbio, entre palpável e o impalpável faz parte dessas histórias. A presença clássica recai sobre o filósofo taoísta Chuang Tzu (século 4 a.C.) com um epigrama que chegou a musicado por Raul Seixas.
A literatura fantástica é um gênero que pode ser descrito como um gigantesco guarda-chuva sob o qual se abrigam dezenas de outros gêneros. Dos contos de fadas aos contos de horror. Da ficção científica aos relatos filosóficos. Independente daquilo que se abriga da chuva, o que merece atenção é a dimensão humana presente nessas histórias. Uma representativa parte dos textos que integram "Antologia da Literatura Fantástica" segue esse caminho. A dimensão humana é revelada não pela realidade que cerca os homens, mas pela imaginação os contorna.

Serviço:
"Antologia de Literatura Fantástica"
Organização - Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo
Editora – Cosac Naify
Posfácio – Walter Carlos Costa e Ursula Le Guin
Tradução – Josely Vianna Baptista
Páginas – 448
Quanto – R$ 69

O Sonho da Borboleta
Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar não sabia se era Tzu que havia sonhado que era uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu.(Texto de Chuang Tzu que integra "Antologia da Literatura Fantástica")
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