LEITURA - Histórias do subsolo
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de novembro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Quando parecia praticamente impossível surgir algum livro inédito do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), aparece ''Gozo Fabuloso'', que acaba de ser lançado pela Editora DBA.
Organizado pelo próprio Leminski pouco antes de morrer, os originais de ''Gozo Fabuloso'' permaneceram perdidos por mais de 15 anos nos arquivos mortos da Editora Brasiliense. Recuperado, o volume marca o nascimento da coleção ''Risco: Ruído'' da DBA, que pretende resgatar obras esquecidas de autores reconhecidos e obras de novos autores em início de carreira.
''Gozo Fabuloso'' reúne contos e crônicas escritos pelo autor ao longo de duas décadas, a grande maioria publicada em jornais e revistas. Mais cultuado por sua poesia, Leminski em várias ocasiões classificou o gênero conto como algo menor dentro da literatura. Mesmo assim, fazendo uso da prosa, criou boas histórias e dois volumes de prosa experimental, ''Catatau'' (1975) e ''Agora é Que São Elas'' (1984).
Os textos que integram ''Gozo Fabuloso'' são irregulares, tanto em relação à forma quanto ao conteúdo. As melhores narrativas são aquelas em que o autor utiliza um dos principais componentes do conto tradicional: contar uma história cativante e, se possível, com um final surpreendente. A grande característica de Leminski como narrador está em utilizar a linguagem como forma de ler e entender o mundo enquanto importante componente do enredo.
Mas a maior grande surpresa da coleção ''Risco Ruído'' não está na recuperação da obra em prosa de Leminski. Ela reside no segundo título coleção, que está sendo lançado ao lado de ''Gozo Fabuloso''. Trata-se de ''O Natimorto'', romance do quadrinista paulista Lourenço Mutarelli.
Reconhecido como um dos grandes criadores de histórias em quadrinhos brasileiros, Mutarelli entrou no território da literatura em 2002, com o romance ''O Cheiro do Ralo''. O absurdo e a crueldade que inundavam roteiros e desenhos, sempre em branco e preto, foram naturalmente transferidos à ficção.
''O Natimorto'', segundo romance de Mutarelli, é tranquilamente cruel. Narra a história absurda do encontro entre um homem e uma mulher. Ele, um agente artístico que não age. Ela, uma cantora que não possui voz. O homem, nomeado ''Agente'', possui uma peculiar prática cotidiana: ler tarô nas imagens de maços de cigarros.
Através das indigestas fotografias veiculadas pelo Ministério da Saúde nos maços, ele prevê o futuro. Associando as possíveis semelhanças entre as imagens do Tarô de Marselha e as fotografias ®MDBO¯®MDNM¯alertando os perigos do fumo, o sujeito, ao comprar cigarros, vislumbra os acontecimentos do dia.
Procurando agenciar a arte da mulher, nomeada apenas de ''Voz'', o homem passa a viver no quarto de hotel onde ela está hospedada. Sua intenção é nunca sair de lá, passar a vida sem ver o mundo externo, esperar pelo fim do mundo sem ter contato com humanos, a não ser a ''Voz''.
Isolado, o ''Agente'' passa o tempo contando histórias à ''Voz'' e prevendo os acontecimentos nos maços de cigarro. Num primeiro momento, ''O Natimorto'' parece ser uma história de amor. Com o andamento da narrativa, o leitor se vê inserido numa história de horror. Mutarelli realiza essa transposição de maneira paulatina e com descrição bem-humorada.
A narrativa desenvolvida por Mutarelli segue uma estrutura semelhante aos balões de quadrinhos e, ao mesmo tempo, a de um texto teatral. Constituída praticamente só de diálogos curtos e ágeis, as descrições são praticamente eliminadas conferindo intensidade às ações verbais. ''O Natimorto'' possui uma narrativa diferenciada daquela existente hoje na ficção brasileira contemporânea. Instigante, apresenta uma maneira particular de narrar.
Serviço:
- ''Gozo Fabuloso'', de Paulo Leminski, Editora DBA, apresentação de Alice Ruiz, posfácio de Joca Reiners Terron, 184 páginas, R$ 29,00.
- ''O Natimorto'', de Lourenço Mutarelli, Editora DBA, posfácio de Ronaldo Bressane, 160 páginas, R$ 29,00.


