Pouco antes de morrer, em 1985, o escritor italiano Italo Calvino elegeu aqueles que considerava os mais representativos contos fantásticos da literatura do século 19. Inicialmente, o trabalho deu origem a um documentário de televisão. Posteriormente, foi transformado em livro, dois volumes que reuniam 26 contos dos mais expressivos autores do gênero.
O livro acaba de ganhar a primeira edição brasileira e congrega os dois volumes idealizados por Italo Calvino (1923 - 1985) em único título: ''Contos Fantásticos do Século XIX''. Lançado pela Editora Companhia das Letras, marca o início de uma coleção de contos que pretende publicar a produção de escritores consagrados, brasileiros e estrangeiros.
Juntamente com ''Contos Fantásticos do Século XIX'', também foi lançado ''47 Contos de Isaac Bashevis Singer'', antologia que reúne textos do escritor polonês de origem judia. Ao longo dos próximos meses a Companhia das Letras publicará outros volumes com contos de Tennessee Williams, Scott Fitzgerald, Guy de Maupassant e Primo Levi.
''Contos Fantásticos do Século XIX'' é uma boa oportunidade do leitor entrar em contato com um gênero literário que ganhou força ao longo do século 19 com grande popularidade. A seleção de Italo Calvino é cronológica e não fica restrita aos autores especialistas do fantástico, mas todos aqueles que criaram histórias com temas oníricos, sobrenaturais, misteriosos, exóticos e macabros.
Calvino estabelece uma distinção nos dois volumes originais entre o que ele chama de ''fantástico visionário'' e ''fantástico cotidiano''. No primeiro grupo estariam as histórias que, acentuando o sobrenatural, projetam o pensamento em direção a um mundo desconhecido, longe da normalidade da realidade. No segundo, estariam as histórias onde os elementos fora da realidade passam a fazer parte do cotidiano comum de qualquer pessoa.
Em ambos os casos, a tentativa em retratar a subjetividade da mente humana, capaz de criar infindáveis situações fantásticas, acentua o fato da imaginação ser um motor de subjetividade por excelência. Partindo de Jan Potocki, que faz do oculto a ponte entre a literatura do século 18 e o início do século 19, até chegar em Herbert George Wells, que coloca no gênero fantástico na direção da ficção científica, os contos escolhidos por Calvino seguem um delineado caminho filosófico.
A antologia deixa evidente que autores como Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Nicolai Gogol, E. T. A. Hoffmann, Walter Scott, Guy Maupassant, Robert Louis Stevenson, Ivan Turguêniev, Henry James e outros pouco conhecidos criaram narrativas que, de uma forma ou outra, tentavam retratar como a realidade pode ser suficiente para traçar um mapa do mundo, mas totalmente insuficiente dar conto da imensidão de pensamentos e percepções que abate todo e qualquer ser humano.
Quando a realidade torna-se pesada demais, quando o concreto sob seus pés começam apresentar rachaduras, os tentáculos do fantástico ganham espaço. Ocupam um amplo lugar na mente de maneira específica, onde só aquele que é perturbado por experiências incomuns é capaz de perceber a impalpável verdade. Em cada experiência, alegorias morais desenham princípios filosóficos íntimos, e, talvez por isso, universais.
Percorrer as páginas de ''Contos Fantásticos do Século XIX'' pode ser tanto encarado como uma aventura literária como uma viagem pela mente humana. Uma mente capaz de sentir e perceber uma colmeia de dúvidas onde ocorra algum espaço vazio. Por mínimo que se apresente, pode ser depositário de sólidos problemas e líquidas soluções.

Serviço:
- ''Contos Fantásticos do Século XIX'', organização de Italo Calvino, Editora Companhia das Letras, textos de Jan Potocki, Joseph von Eichendorff, E. T. A. Hoffmann, Walter Scott, Honoré de Balzac, Philaréte Charles, Gérald de Nerval, Nathaniel Hawthorne, Nokolai V. Gogol, Théophile Gautier, Prosper Mérimée, Joseph Sheridan Le Fanu, Edgar Allan Poe, Hans Christian Andersen, Charles Dickens, Ivan S. Turguêniev, Nicolai S. Leskov, Auguste Villiers de l'Isle-Adam, Guy de Maupassant, Vernon Lee, Ambrose Bierce, Jean Lorrain, Robert Louis Stevenson, Henry James, Rudyard Kipling e Herbert G. Wells, vários tradutores, 520 páginas, R$ 36,50.

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