Existem segredos espalhados por todos os lugares. Todos cultivam segredos. Os mais variados possíveis, de todas as cores e aromas. Eles estão por toda a parte, na vida das pessoas comuns, entre quatro paredes, em grandes espaços abertos. Estão discretamente estacionados nos detalhes.
A questão que se apresenta é direta: os segredos são realmente secretos? Basta refletir um pouco para chegar à conclusão de que não, grande parte dos segredos não são secretos. São falsos segredos. São segredos apenas porque não há o costume de conversar sobre eles. Estão por toda a parte, evidentes, mas levemente disfarçados pelo silêncio.
Em "Falsos Segredos", a escritora canadense Alice Munro narra histórias em que os segredos possuem essa peculiaridade. Eles estão evidentes aos olhos de todos, mas ninguém se dispõe a tocar no assunto. Não seria apenas hipocrisia, mas uma espécie de pacto silencioso para a convivência social. Aquilo que a boca não fala, o olho não vê.
O livro acaba de ser lançado pela editora Globo e se junta a outros volumes de contos de Alice Munro publicados no Brasil nos últimos anos: "Felicidade Demais" (Cia. Das Letras, 2010), "O Amor de Uma Boa Mulher" (Cia. Das Letras, 2013), "Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento" (Globo, 2013), "Vida Querida" (Cia. Das Letras, 2013), "Amigas de Juventudes" (Globo, 2014), "A Vista de Castle Rock" (Globo, 2014) e "Fugitiva" (Globo, 2014).
Nos oito contos que integram "Falsos Segredos", Alice Munro faz uso de cortes abruptos na narrativa para mostrar como partes intercaladas de uma mesma história são capazes de revelar o todo. Também elimina a ordem cronológica dos acontecimentos, tumultuando e invertendo a posição entre passado e presente. Cria uma nova atmosfera para a vida de pessoas comuns envolvidas em questões de erros e acertos, vícios e virtudes.
Seu grande foco de atenção está nas personagens femininas que, apesar de serem pessoas comuns vivendo vidas simples, carregam um alto grau de complexidade. São mulheres desesperadas para se casarem, mulheres desesperadas para se separarem dos maridos, mulheres desesperadas para terem filhos, mulheres desesperada para ficarem livres dos filhos. Não é a contradição que interessa, mas como as opções exercidas se modificam e ganham novos contornos ao longo do século 20.
No conto "O Hotel Jack Randa", por exemplo, uma mulher, após ser abandonada pelo amado, começa a persegui-lo fazendo uso de uma nova identidade. Em sua jornada, entre humilhação e coragem, entra em contato com a seguinte percepção: "Histórias eram contadas sobre homens, geralmente sobre homens que haviam partido. Mentiras, injustiças e confronto. Traições horríveis – embora tão banais – que a única reação possível ao ouvi-las era rolar de rir. Homens faziam discursos tolos (‘Lamentos, mas não me sinto mais comprometido com este casamento’). Ofereciam-se para vender de volta para as esposas os carros e imóveis pelos quais as próprias esposas haviam pago. Davam cambalhotas de autossatisfação porque tinham conseguido fecundar algumas fêmeas úmidas mais jovens que seus próprios filhos. Eram diabólicos e infantis. O que se podia fazer além de desistir deles? Com toda honra, com orgulho, e para sua própria proteção?"
No conto "A Viagem Albanesa", uma mulher larga marido e amante para viver uma nova vida num lugar distante. Em suas reflexões cotidianas, chega a conclusões como esta: "Eu sofria de prisão de ventre, sabia que estava com mau hálito, tinha câimbras nos braços e pernas e o ânimo absolutamente devastado. E na época não pensei: ‘Que absurdo pensar que um homem seja tão diferente de outro quando tudo o que a vida realmente se reduz é conseguir uma xícara de café decente e um lugar para se espreguiçar’? Não imaginei que, mesmo que Nelson estivesse aqui sentado a meu lado, ele teria se transformado num estranho de rosto sombrio cuja desolação e insatisfação apenas aumentariam a minha própria desolação e insatisfação?"
Nascida em 1931, em Wingham, no Canadá, Alice Munro recebeu o prêmio Nobel de Literatura de 2013. Considerada uma das grandes vozes femininas da literatura contemporânea, toda sua obra ficcional é dedicada ao gênero conto. Em suas histórias, as pessoas sempre mudam, se transformam, independente da situação ou da condição de suas vidas. Para o bem ou para o mal, sempre saem do lugar em que estão acomodadas. Sempre mudam suas vidas, para pior ou para melhor. Sempre se transformam sem grandes segredos.

Serviço:
"Falsos Segredos"
Autor – Alice Munro
Editora – Globo
Tradução – Celina Portocarrero
Páginas – 324
Quanto – R$ 44,90

O senhor talvez se interesse em saber o que o médico que a examinou teve a dizer sobre o caso. Sua opinião é de que ela está sujeita a uma espécie de ilusão peculiar às mulheres, cujo motivo é um desejo de importância, e também um desejo de escapar à monotonia da vida ou ao trabalho penoso para o qual possam ter nascido. Elas podem se imaginar possuídas por forças do mal, acreditar ter cometido diversos crimes hediondos, e assim por diante. Podem às vezes relatar terem tido vários amantes, mas esses amantes serão todos imaginários e a mulher que se considera um prodígio do vício será de fato bastante casta e intocada. De tudo isso, ele – o médico – credita a culpa ao tipo de leitura acessível a essas mulheres, sejam de fantasmas ou demônios, sejam de aventuras amorosas com lords, duques e afins. Para muitas, tais contos são um gosto passageiro do qual desistem se se impõem os deveres da vida real. Outras se deliciam com eles de vez em quando, como se fossem doces ou xerez, mas para algumas há uma total rendição e essas passam a viver dentro deles, exatamente como num sonho de ópio. Ele não conseguiu descobrir quais foram as leituras da jovem, mas acredita que, a esta altura, ela já possa ter esquecido o que leu, ou que, por astúcia, mantenha o assunto em segredo. (Do conto "Uma Estação Deserta" que integra "Falsos Segredos", de Alice Munro)
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