O cotidiano e o dia a dia ocupam grande parte da vida de homens e mulheres. Não há escapatória. Quando as pessoas não estão dormindo, estão imersas até o pescoço na teia do cotidiano.
A normalidade do dia a dia pode ser considerada a primeira camada da existência. A camada onde tudo parece ser matéria e razão. Mas há a segunda camada, aquela onde os efeitos do cotidiano acontecem nem sempre dentro da normalidade.
Essa segunda camada é um turbilhão invisível. Quase um universo paralelo do cotidiano. Um turbilhão particular dentro de cada ser humano.
É justamente nessa camada que a literatura da escritora canadense Alice Munro se especializou. E de maneira impecável em relação à camada feminina. "O Amor de Uma Boa Mulher", sua obra que acaba de ser lançada pela editora Companhia das Letras, deixa isso mais do que claro.
O volume reúne oito contos que, pelo tom e estrutura, estão mais próximos dos gêneros novela e romance do que do conto propriamente dito. As narrativas não seguem o tempo cronológico, reproduzem o processo do pensamento de pessoas comuns, com pulos, idas e vindas. As histórias das personagens são retratadas sempre a partir do cotidiano, da vida diária, doméstica e íntima. Sobre esse retrato, Alice Munro insere a segunda camada com uma simplicidade plácida e surpreendente.
O conto (de 80 páginas) que dá título ao livro pode ser considerado uma pequena obra-prima. Traz a história de uma enfermeira com anos de estrada no trabalho de cuidados de pacientes complicados. Certo dia, uma de suas pacientes, antes de morrer, confessa um segredo guardado a sete chaves. Um segredo que envolve desejo, violência e culpa.
Atormentada por deter o segredo após a morte da paciente, a enfermeira resolve fazer com que o culpado opte pela remissão. E resolve mais. Coloca sua vida em jogo para que o culpado seja culpado por mais um crime. Um jogo onde ele tem a escolha em provocar uma nova violência. E a opção em escolher entre a justiça contra si próprio ou a injustiça contra o outro. O objetivo da enfermeira é complexo: conhecer a verdadeira face do outro. Mesmo que para isso coloque sua própria vida em jogo. E mais: está preparada para se entregar à derrota. Mas isso surge apenas como a ponta do iceberg. A parte submersa, a segunda camada, passa pela experiência da leitura.
As personagens femininas ocupam lugar de destaque em "O Amor de Uma Boa Mulher". Na maioria das histórias narradas, o que realmente acontece na segunda camada está longe da trilogia de cuidados que as mulheres se ocupam no cotidiano de casa, marido, filhos. Ao mesmo tempo em que há o sonho de conquistar essa trilogia para dedicar cuidados, há também um turbilhão de vontades e desejos que caminham na direção inversa. Simplesmente, no íntimo, não dão conta do destino.
No conto "Antes da Mudança", Alice Munro aborda um tema que escritores desconhecem completamente e as escritoras, aquelas que poderiam falar com conhecimento de causa, geralmente escolhem o silêncio: aborto. Narra a história de uma filha que retorna à casa do pai, um médico viúvo, após viver mundo afora. No cotidiano da casa, onde o pai mantém o consultório, ela descobre que mulheres regularmente solicitam a ajuda dele para abortarem. Serviços médicos sem risco.
Sem hipocrisia, dogmas ou credos, a escritora coloca na segunda camada coisas que o silêncio pronuncia sobre o assunto. E esse também é uma das características da literatura de Alice Munro: o silêncio, a pausa, a suspensão. Na estrutura narrativa de seus contos aquilo que não é dito possui um peso revelador. O espaço em branco e o sentido suspenso tornam-se conteúdo determinante na condução narrativa. Tudo dentro da família. Existências nebulosas de mães, avós, tias, irmãs, filhas, netas, pais, avôs, tios, irmãos, filhos e netos.
Alice Munro nasceu em 1931, em Wingham, Canadá. Com dezenas de prêmios literários nas mãos, é considerada a autora de maior destaque da literatura canadense de língua inglesa da atualidade. Pelo estilo de seus contos, recebeu o apelido de "Tchekhov canadense de saias". Possui, além de "O Amor de Uma Boa Mulher", outros três livros igualmente interessantes lançados no Brasil, "Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento" (Globo, 2003), "Fugitiva" (Companhia das Letras, 2006) e "Felicidade Demais" (Companhia das Letras, 2010).

Serviço:
"O Amor de Uma Boa Mulher"
Autor – Alice Munro
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Jorio Dauster
Páginas – 378
Quanto – R$ 54,50

"Igual a uma casquinha de sorvete", respondeu Enid. Foi desse jeito que ela viu, exatamente. Ainda podia ver desse jeito. O cone cor de biscoito com sua porção de sorvete de baunilha apertada contra o tórax da mulher, a outra ponta espetada na boca do pai. Sua mãe fez então algo inesperado. Abriu o vestido e pôs para fora um objeto esmaecido, que sacudiu com a mão. "Como isso aqui?" Enid disse que não. "Uma casquinha de sorvete." "Então foi um sonho", disse a mãe. "Os sonhos às vezes são muito bobos. Não conte nada a seu pai. É tolo demais." Enid não acreditou logo na mãe, mas passado mais ou menos um ano entendeu que tal explicação deveria ser correta porque as casquinhas de sorvete nunca assumiram aquela posição no tórax das mulheres e nunca se mostraram tão compridas. Mais tarde ainda se deu conta de que devia ter visto em algum quadro. (Fragmento do conto "O Amor de Uma Boa Mulher" de Alice Munro)
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