Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Girassóis de um lugar distante
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Murilo Rubião: talvez o precursor do realismo fantástico na América Latina
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Alguns o consideram o pioneiro da literatura fantástica brasileira. Outros o consideram o precursor do realismo fantástico na América Latina. O fato é que, já na década de 1940, o escritor mineiro Murilo Rubião (1916 – 1991) criava narrativas que tirava os pés do leitor da terra.
Em suas histórias, um coelho é capaz de sentar, ao lado de um homem num bando de praça. E como não quer nada, pedir um cigarro para fumar.
Em seus contos, um mágico que não consegue se desvencilhar das mágicas opta pelo suicídio. E para isso escolhe o suicídio mais lento do mundo: ser funcionário público.
Em suas narrativas, um engenheiro recebe a tarefa de construir um prédio com andares infinitos. Uma obra que deve atravessar gerações de operários ao longo dos séculos e nunca ser concluído.
Em seus relatos, há um marido que, em nome do amor, resolve dar à esposa tudo aquilo que ela deseja comer. A mulher aumenta continuamente de tamanho até que pede o quase impossível: comer o mar.
Nas histórias de Rubião há explicitamente elementos fantásticos, mas também há uma ironia próxima da crueldade. Um tipo de ironia aparentemente disfarçada de elementos mágicos, mas que, em sua essência abre uma coleção de gavetas para leituras e interpretações sombrias.
Murilo Rubião nasceu na pequena cidade de Carmo de Minas, em 1916. Após concluir a faculdade de Direito em Belo Horizonte, passou a trabalhar como jornalista em vários veículos de comunicação de MG. Em pouco tempo trocou o jornalismo pela política. No início da década de 1950 foi chefe de gabinete do então governador do estado, Juscelino Kubitscheck. Em 1966 recebeu a missão de criar e editar o Suplemento Literário de Minas Gerais, um dos principais periódicos literários ainda em circulação do país.
Publicou o primeiro livro de contos, "O Ex-mágico", em 1947. Apesar de ter lançado sete livros, sua produção pode ser considerada pequena. Isso porque Murilo Rubião tinha a mania de reescrever e reescrever suas histórias após a publicação. E publicava essas novas versões em novos livros. Assim, é possível encontrar um mesmo conto em diferentes versões publicadas em livros diferentes.
Nessa no meio dessa confusão de versões, pesquisadores chegaram a conclusão que a obra completa de Murilo Rubião estaria resumida a 33 contos.
A editora Ática publicou, em 1998, a primeira edição com toda a obra do escritor: "Contos Reunidos". O critério, usual em outros casos semelhantes, foi o de considerar as últimas versões publicadas como definitivas. Isso pelo fato de serem as últimas versões aprimoradas pelo autor ao longo das sucessivas vezes em que foram reescritas.
A editora Companhia das Letras acaba de colocar nas livrarias uma nova edição dos contos completos de Murilo Rubião. "Obra Completa", que traz os 33 contos, está sendo lançado em homenagem ao centenário de nascimento do escritor comemorados em 2016.
A literatura de Rubião, desde a publicação dos primeiros contos, sempre foi comparada àquela produzida pelo escritor tcheco Franz Kafka (1883 – 1924). Primeiro pela capacidade de inserir o absurdo em situações reais, segundo por apresentar personagem que sofrem metamorfoses em variados níveis.
O próprio Rubião questionava essa comparação alegando que, até publicar os primeiros três ou quatro livros, nunca havia lido nenhum texto de Kafka. Teria conhecido a obra do autor tcheco somente na década de 1960, quando viveu na Europa atuando como adido cultural da diplomacia do governo brasileiro.
A grande questão é que a literatura de Murilo Rubião é um caso único na história da literatura brasileira. Assim como é única a obra literária de outro escritor mineiro contemporâneo de Rubião: Campos de Carvalho (1916 – 1998). São casos peculiares. Como azuis girassóis de um lugar distante. Como dedos de uma flor tocando um piano de pedra.

Serviço:
"Obra Completa – Edição do Centenário"
Autor – Murilo Rubião
Editora – Companhia das Letras
Posfácios – Jorge Schwartz e Carlos de Brito e Mello
Páginas – 288
Quanto – R$ 44,90

Chamava-se Teleco. Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar o próximo. Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou prestando-lhes ajuda. O mesmo cavalo que, pela manhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento caminhar, conduzia anciãos ou inválidos às suas casas. Não simpatizava com alguns vizinhos, entre eles o agiota e suas irmãs, aos quais costumava aparecer sob a pele de leão ou tigre. Assustava-os mais para nos divertir que por maldade. As vítimas assim não entendiam e se queixavam à polícia, que perdia tempo ouvindo as denúncias. Jamais encontrara em nossa residência, vasculhada de cima a abaixo, outro animal além do coelhinho. Os investigadores irritavam-se com os queixosos e ameaçavam prendê-los. Apenas uma vez tive medo de que as travessuras do meu inquieto companheiro nos valessem sérias complicações. Estava recebendo uma das costumeiras visitas do delegado, quando Teleco, movido por uma imprudente malícia, transformou-se repentinamente em porco-do-mato. A mudança e o retorno ao primitivo estado foram bastante rápidas para que o homem tivesse tempo de gritar. Mal abrira a boca, horrorizado, novamente tinha diante de si um pacífico coelho: - O senhor viu o que eu vi? Respondi, forçando uma cara inocente, que nada vira de anormal. O homem olhou-me desconfiado, alisou a barba e, sem se despedir, ganhou a porta da rua. (Fragmento do conto "Teleco, o Coelhinho" que integra "Obra Completa" de Murilo Rubião)
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