LEITURA - Gerações em órbita
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de agosto de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
''Seja realista, peça o impossível''. Essa frase, que está prestes a completar 40 anos de idade, tornou-se o símbolo da revolta estudantil e política ocorrida em Paris em maio de 1968. Na época, o escritor francês Olivier Rolin era um jovem empenhado em colocar em prática a acalentada revolução.
Membro de uma organização de esquerda de princípios maoístas, Olivier Rolin passou grande parte da juventude na clandestinidade. Atuando em ações de guerrilha política, participava do sonho de uma sociedade igualitária sem nenhuma orientação autoritária.
Em sua obra mais recente, ''Tigre de Papel'', Rolin transforma esse período histórico num romance de ajuste de contas com o passado. Na verdade, o ajuste de contas de toda uma geração com seus ideais fracassados. Lançado pela Editora Cosac Naify, o livro olha para os acontecimentos de maio de 68 com os olhos da atualidade.
Em ''Tigres de Papel'' um homem de meia idade chamado Martin vaga noite adentro, no volante de um automóvel, pelas ruas de Paris sem destino definido. No banco do passageiro encontra-se Marie, adolescente e filha do melhor amigo de Martin.
Os dois estão ali a pedido de Marie, que deseja que Martin fale um pouco sobre seu pai, que morreu quando ela era criança. Martin e o pai da garota eram dois amigos inseparáveis que participaram dos inflamados acontecimentos de Paris no final da década de 60 e meados de 70. Ambos faziam parte de uma organização revolucionária que praticava a guerrilha urbana.
Logo no começo de seu relato, Martin deixa claro que para falar do amigo, precisa falar de todos que lutavam pela ''causa''. Ou seja, no processo que vivia, a individualidade tinha pouco valor, no coletivo residia a maioria dos valores. Marie não consegue entender completamente o que isso significa por fazer parte de uma época e de uma geração onde os valores individuais possuem grande valor, maior que o próprio coletivo.
Assim, o narrador vai apresentando a história do pai de Marie juntamente com a sua própria história, bem como a de outras pessoas que atuavam como revolucionários. Nesse processo, o personagem, visivelmente alter ego de Olivier Rolin, apresenta reflexões que trafegam entre o passado e o presente, sempre procurando entender as relações entre o mundo em que viveu, décadas atrás, e aquele que em vive no momento.
O que transforma ''Tigre de Papel'' em um romance mais interessante que a temática abordada, é a estrutura narrativa utilizada por Rolin. Fazendo uso da imagem de um motorista vagando pela cidade, incorpora a paisagem urbana na narrativa. O que os olhos do narrador vêem pelo vidro do carro, é apresentado juntamente com aquilo que ele fala, juntamente com aquilo que ele pensa.
Dessa maneira, o texto incorpora os estímulos visuais recebidos pelo personagem em seu deslocamento pela cidade. E esses estímulos passam a despertar outros estímulos visuais do passado, a memória do mesmo espaço físico. Trata-se de recurso recorrente em ''Tigres de Papel''. Assim como Marie perdeu o pai na infância, numa batalha dentro de um ideal de ideológico, Martin também perdeu seu pai ainda na infância dentro de ideal colonialista. Passado e presente, seja no campo espacial, histórico, ideológico, comportamental ou emocional, sempre estão se cruzando no interior do texto.
Olivier Rolin, que possui outros dois romances publicados no Brasil, ''Porto Sudão'' (Editora Martins Fontes, 1995) e ''Paisagens Originais'' (Editora Bertrand Brasil, 2002), está no país participando dos eventos da Flip - Festa Literária Internacional de Parati neste final de semana. No dia 17 participa de um debate em São Paulo ao lado da pesquisadora brasileira Olgária Mattos.
Serviço:
- Livro ''Tigre de Papel'', de Olivier Rolin. Editora Cosac Naify, tradução de José Bento Ferreira, 288 páginas, R$ 49,00.


