Karen Debertólis: "A ideia é explorar as subjetividades dos lugares, como o exterior concreto pode ativar as sensações mais íntimas"
Karen Debertólis: "A ideia é explorar as subjetividades dos lugares, como o exterior concreto pode ativar as sensações mais íntimas" | Foto: Renata Cabrera/Divulgação



A poesia como uma grande geografia sentimental.
Uma viagem pelas sensações que a geografia é capaz de potencializar.
Assim pode ser descrito o caminho desenhado em "Mapas Sutis", novo livro da escritora londrinense Karen Debértolis que acaba de ser lançado pela editora Patuá.
Distanciando-se da prosa-poética, gênero determinante de seus livros anteriores, em "Mapas Sutis" Karen entra de cabeça no território da poesia para falar sobre o eterno deslocamento humano. E para revelar como as subjetividades dos lugares físicos são capazes de despertar íntimas sensações e reações mentais.
O livro foi lançado no último final de semana em São Paulo, na livraria Patuscada. Em Londrina estão previstos três lançamentos: dia 5 de maio na Feira Dobra no Museu Histórico de Londrina, dia 10 de maio no projeto Clube de Leitura no Sesc Cadeião, e dia 25 de maio na Casa Madá.
Autora de "Calidoscópio" (1995), "Guardados" (2003), "Estalagem das Almas" (2006) "A Mulher das Palavras" (2009) e "Prosa de Palavras" (2012), Karen Debértolis fala a seguir sobre seu novo livro, "Mapas Sutis".

Em seus livros anteriores você explora a prosa poética. Em seu novo livro, você entra de cabeça na poesia. Os versos que integram "Mapas Sutis" fazem parte de sua produção recente?
Sim, são poemas inéditos que foram escritos, ao longo dos últimos anos, durante viagens a trabalho, familiares, a passeio. São textos em que falo sobre o deslocamento, seja concreto, de um lugar para outro, ou subjetivo, provocado por este ‘estar em trânsito’ observando o mundo e sendo afetado por ele.

Em "Mapas Sutis" você explora sensações de espaços, uma espécie de geografia sentimental. Qual sua intenção com essa abordagem poética?
A ideia é explorar as subjetividades dos lugares, como o exterior concreto pode ativar as sensações mais íntimas, despertar determinados sentimentos ou até reações. Por exemplo, a série de poemas intitulada "Boipeba", referindo-se a uma ilha na costa da Bahia, foi quase toda escrita ou rascunhada durante a minha estadia lá. É o resultado de vivências no lugar, mas também de sonhos que tive enquanto estava na ilha, observação de pessoas, das paisagens que o lugar cria e proporciona. Então, é uma reapropriação desta geografia, não mais transformada em mapas, no sentido de cartas de localização, mas sim por meio do ‘desenho’ do lugar, as suas trilhas, a partir do subjetivo, das emoções.

O livro é divido em duas partes, "Terrestres" e "Marítimos". Qual o significado desses dois territórios?
"Terrestres" relaciona-se com os poemas em terra firme, circunscritos ao deslocamento na cidade, nos espaços de intimidade, de relações mais íntimas, sempre pensando no espaço urbano ou seus arrabaldes que também se referem à ação humana de transformação, como no poema "Silo". Nesta parte, trabalhei poemas mais longos, foi um exercício de produção muito importante e algo ao qual me dediquei por muito tempo, no sentido de conseguir realizar e aprimorar. "Marítimos" é uma série de poemas interconectados que, na sua essência, tem a fluidez da água. A relação mar e céu com todos os seus elementos e desdobramentos, está muito presente. Ao contrário da primeira parte, a proposta é trabalhar com a síntese.

Alguns poemas fazem uso do espaço em silêncio, algo novo em sua produção. Qual o motivo dessa escolha?
O silêncio ganha destaque na minha produção a partir do trabalho que desenvolvi com a música. O exercício da oralidade na poesia, através do projeto musical "A Mulher das Palavras", despertou a minha reflexão sobre a questão do silêncio em minha poesia e como ela funcionava. Fui compreendendo como manejar o silêncio para intensificar as intenções poéticas, os sentidos. Não é exatamente uma escolha, mas um desdobramento que, naturalmente, foi evidenciando-se no decorrer do trabalho diário com a poesia.

Sua literatura propaga algo que pode ser nomeado como ‘voz-mulher’. Essa voz é uma escolha estética ou uma posição diante do mundo?
Esta voz que emerge no meu trabalho, que denomino ‘lugar de fala’, sempre esteve presente, mas torna-se mais evidente a partir do CD "A Mulher das Palavras". A título da obra não foi escolhido por acaso, tem a intenção de estabelecer de quem é esta voz. Não é uma escolha estética, mas trata-se de um ‘estar no mundo’.

Serviço:
"Mapas Sutis"
Autora – Karen Debértolis
Editora – Patuá
Páginas – 76
Quanto – R$ 38

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Geografia sentimental de íntimos lugares
| Foto: Reprodução



[left]Fragmentos

O QUE UM VIAJANTE PRECISA LEVAR CONSIGO:

o endereço de um amigo que mora em Berlim
folhas secas de sua árvore preferida
o itinerário preciso até a Citylights
moedas que falem a língua de vários lugares

um caderno em branco com capa de cor neutra
um coração
um chapéu para os dias frios
um chinelo para os dias de sol

frutas secas para saciar a fome
o barulho do vento marítimo uivando no córtex
a máquina fotográfica da memória
o atrito da areia ao sol escaldante entre seus dedos dos pés

mapas de desorientação dos sentidos
óculos escuros com aros de tartaruga
um tanto de coragem
menos de si mesmo

espaços vazios entre as dobras do cérebro





RETROVISOR

no retrovisor
as imagens explodem em cores

árvores
faixas do acostamento
declives
curvas de arrependimento
pedidos de perdão

pelo espelho lateral
as encostas verdejantes
apenas rabiscos de lembranças da viagem

ciúme é a inveja de não estar lá
horizontes desejados
uma luz que cega os espelhos

reflexos
imagens que explodem em cores
no retrovisor

músculo de alumínio
esgarça a cada pancada de amor

faz tremer
a coluna de titânio
ereta e flexível
que aplaca as dores

ecoam zunidos
na concavidade de zinco
ácida e ardente
ao sol de uma tarde qualquer

pelas veias
o mercúrio
risca um caminho prateado
na pele película
transparente feito papel de arroz

prata de dores
tinge o músculo de alumínio
– sôfrega máquina de viver –
que engasga em soluços metálicos


(Poemas que integram o livro "Mapas Sutis", de Karen Debértolis)[/left]

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