LEITURA - Flores na tempestade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Mortos e feridos. Este foi o saldo das manifestações ocorridas no Chile que os jornais noticiaram na semana passada. Centenas de detidos e hospitais entupidos de feridos. Tudo em comemoração ao aniversário do golpe de Estado que levou o ditador Augusto Pinochet ao poder em 1973. A ditadura militar mais violenta da América Latina até hoje não saiu da cabeça da população chilena.
Parece que também não saiu da cabeça do escritor chileno Antonio Skármeta. Seu novo romance, ''O Dia em Que a Poesia Derrotou um Ditador'', acaba de ser lançado no Brasil pela editora Record, e retrata o início da transição da ditadura militar para a democracia. O livro recebeu, no início do ano, o Prêmio Ibero-Americano de Narrativa, promovido pela Casa de América.
A obra aborda o plebiscito proposto por Pinochet em 1988 para a população decidir se ele deveria ficar no poder por mais oito anos ou não. A partir do fato histórico, Skármeta cria uma ficção pautada pela esperança de mudança e de dias melhores.
''O Dia em Que a Poesia Derrotou um Ditador'' narra a história de Adrián, um dos melhores publicitários de Santiago que durante a ditadura permanece sem emprego. Preso e torturado vive no limbo sob as botas dos militares.
Quando Pinochet inventa o plebiscito pressionado por instituições internacionais, convida Adrián para fazer a campanha publicitária do ''sim'', da continuidade da ditadura militar. Ao mesmo tempo, Adrián também recebe o convite, de um grupo de partidos políticos de oposição, para criar a campanha do ''não'', pela instauração da democracia.
Obviamente, mesmo se borrando de medo, Adrián, por uma questão ética, escolhe fazer a campanha no ''não''. O drama é que ele está enferrujado pelo tempo que ficou sem trabalhar na área e tem apenas 15 minutos de programa de televisão para convencer a população a virar a página da história.
Em crise, não consegue criar nada que tenha o apelo ideal e acaba se apropriando da idéia de outra pessoa: o argumento de substituir a violência pela paz. Desenvolve uma valsinha grudenta falando de paz e amor, escolhe como símbolo a imagem do arco-íris e, num passe de mágica, o mundo está salvo do mal pela poesia.
Tudo bem que o autor faça a opção pelo otimismo e aposte na imaginação e na poesia para derrubar as atrocidades do poder militar, mas exagera. A ''síndrome de Pollyanna'' invade grande parte dos argumentos narrativos deixando o romance imerso num copo de água com bastante açúcar.
Paralelamente à trajetória de Adrián, ''O Dia em Que a Poesia Derrotou um Ditador'' traz a história de Nico, um jovem estudante, namorado da filha de Adrián. Nico vive dividido entre a descoberta do amor e o desaparecimento do pai pelas mãos dos militares. Contrapondo dessas duas gerações, aquela foi cerceada pela violência do regime ditatorial e aquela que nasceu e cresceu dentro dele, Skármeta ergue os melhores elementos do romance.
Apesar das lantejoulas poéticas espalhadas por ''O Dia em Que a Poesia Derrotou um Ditador'', é possível encontrar alguma lucidez soterrada em algumas páginas: o papel da publicidade na política. De um lado, a sanguinária ditadura necessita das façanhas da propaganda eleitoral para ser escolhida como melhor opção. De outro, a esperança pela restauração da democracia pacífica também necessita de propaganda eleitoral para ser votada como melhor solução. Resumindo, a população não teria a capacidade de realizar a escolha por si só, com os próprios referenciais éticos que possui. Ela precisaria do auxílio da propaganda criada pela genialidade mirabolante de marqueteiros políticos para decidir pela ''melhor escolha''.
Nascido em 1940, Antonio Skármeta é conhecido pela autoria do romance ''O Carteiro e o Poeta'', transformado em filme pelo cineasta Michael Radford em 1994. Narrando a história ficcional de amizade entre um humilde carteiro e o poeta Pablo Neruda, a adaptação cinematográfica tornou-se popular em todo o mundo.
A trajetória da literatura de Skármeta está, invariavelmente, pautada pela temática política. Sempre que indagado sobre o motivo da presença dos temas políticos em seus livros, a resposta é uma só: ''Para um chileno que presenciou as atrocidades da ditadura militar, é difícil não falar sobre política''.
Serviço:
- ''O Dia em Que a Poesia Derrotou um Ditador''
Autor - Antonio Skármeta
Editora - Record
Tradução - Luís Carlos Cabral
Páginas - 224
Quanto - R$ 32,90
Fragmento:
Na casa de Adrián a confiança começou a crescer quase tanto como em todas as províncias chilenas. Em um país onde o principal entretenimento era ver TV, o surgimento do ''Não'' nos meios de comunicação quebrou a solidão que marcava a vida de cada pessoa ou grupo familiar. A rotina da desesperança foi matizada.
Pela primeira vez - disseram os sociólogos - as pessoas sentiram que a televisão estava falando para elas e não passando por cima delas. Aqueles quinze minutos eram uma espécie de ''big bang'' de imagens que não se extinguiam depois da transmissão: continuavam gerando novos astros, choques de energia em todos os lugares, a expressão grave havia se distendido, o rito amargo dera lugar aos sorrisos.
Até aquele momento, o que não aparecesse na tela parecia não ser real. As pessoas sentiam que os seres fictícios e banais das séries de TV eram mais reais do que elas próprias. Elas tinham apenas silêncios. Não tinham autorização para viver, só para ser testemunhas de vidas irreais.
(Fragmento de ''O Dia em Que a Poesia Derrotou um Ditador'', de Antonio Skármeta)


