LEITURA - Flores em chamas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de maio de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

As mulheres falam. Em todos os lugares falam. Dia e noite falam. Entre risos e lágrimas elas falam. Falam, mas suas vozes ainda frequentam aquele lugar onde a invisibilidade abafa o som das palavras. No território da literatura essa situação não é muito diferente. Na poesia brasileira as vozes masculinas ainda são predominantes.
A jornalista e poeta paranaense Marilia Kubota e a professora de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Rita Lenira de Freitas Bittencourt resolveram mudar essa situação. Organizaram a antologia "Blasfêmeas Mulheres de Palavra" recém lançada pela editora Casa Verde.
O livro reúne poemas de 64 mulheres que vêm publicando seus escritos a partir dos anos 1990 em livros, periódicos literários, sites e blogs. São autoras das mais variadas regiões do país que oferecem um interessante panorama da produção poética brasileira. Duas autoras londrinenses integram a antologia: Karen Debértolis e Célia Musilli.
A seguir, Marilia Kubota, uma das organizadoras do volume, fala sobre o livro e a condição feminina na literatura.
Qual foi o critério utilizado na seleção das autoras que integram a antologia?
Selecionamos autoras que publicaram a partir dos anos 1990. O mote da antologia era compor poemas em homenagem a Hilda Hilst. Deixamos as autoras livres para seguir ou não o tema. No fim, todas acabaram escrevendo sobre a condição feminina.
Em "Blasfêmeas: Mulheres de Palavra" é possível encontrar temáticas e linguagens diversas. Apesar dessa multiplicidade, você visualiza elementos de confluências na produção das 64 poetas presentes na antologia?
"Mulher raramente deixa de escrever como mulher." Essa frase aparece em um ensaio de Ana Cristina César. A maior parte dos poemas do livro são discursos de afirmação e denúncia social. A desigualdade e violência a que a mulher é submetida é que motiva este tipo de discurso.
Há aqueles que defendem que existe uma poesia feminina e há aqueles que defendem que existe apenas poesia, independente se escrita por homens ou mulheres. Existe uma poesia feminina?
O problemático é usar a palavra "feminina", que tem uma conotação pejorativa. "Poesia feminina", "literatura feminina", evocam o universo da "bela, recatada e do lar", ou seja, da visão tradicional da mulher na sociedade patriarcal. Cada vez mais mulheres têm publicado poesia e ficção, e as mulheres ou afirmam sua sexualidade ou denunciam os abusos e a desigualdade. O preocupante na produção de autoria feminina é a falta de visibilidade. Mulheres escrevem, mas não divulgam. O mais perturbador não é a quantidade de mulheres desconhecidas do grande público que tiveram atividade intelectual literária no Brasil. É que, raramente elas permaneceram na história da literatura. Tanto em séculos anteriores como nos dias de hoje, mulheres escrevem e desaparecem, mesmo que tenham tido uma vida dedicada à literatura. Um dos maiores empecilhos para que a mulher se dedique à literatura, à arte ou atividades públicas, é o trabalho doméstico ou cuidados a familiares. Estes trabalhos, em geral, são relegados às mulheres. Outro empecilho é o corporativismo masculino. Entre um autor e uma autora, os editores, jornalistas, críticos, pesquisadores, na maioria postos ocupados por homens, preferem divulgar o homem.
Você acha que seria mais adequado chamar de "vozes poéticas femininas" e "vozes poéticas masculinas"?
Não há diferenças entre vozes poéticas, e a questão que discute hoje não é esta. Durante muito tempo, no Brasil e no mundo, só houve vozes poéticas masculinas, ou uma predominância delas. Os homens falavam pelas mulheres. As vozes femininas quase sempre eram lamuriosas. Durante algum tempo, Cecília Meirelles foi considerada o exemplo de voz poética feminina no Brasil. Era uma das poucas poetas conhecidas. Quase todas as poetas imitavam seu estilo, suave, misterioso, com um discurso elevado, pairando sobre as nuvens. Nos anos 1970 surge Adélia Prado, que se coloca como uma mulher no cotidiano, contraditória, cheia de desejos. Depois vemos surgir Hilda Hilst, que tem um discurso erudito, como Cecília, mas não sublima o desejo de mulher. Hoje em dia temos uma exacerbação do discurso da sexualidade, e uma confrontação com a postura masculina. O elemento novo na poética feminina talvez seja o humor. Mulher já não chora, ri da sociedade que a oprime.
Seria possível afirmar que, no território da poesia, existem coisas que apenas homens conseguem dizer como igualmente existem coisas que só as mulheres conseguem dizer?
Do ponto de vista da criação, mulheres e homens podem dizer tudo o que quiserem. Machado de Assis e José de Alencar criaram folhetins para mulheres, no século 19. Raquel de Queiroz escreveu "O Quinze", um romance social sobre a seca no início do século 20. O que acontece agora é que o universo da mulher não está mais confinado ao espaço doméstico. A mulher quer conquistar mais o espaço público. Na história da literatura, mesmo com o confinamento e o cerceamento patriarcal, autoras excepcionais foram reconhecidas. É o caso da poeta americana Emily Dickinson, que vivia quase isolada e se tornou uma das mais importantes vozes poéticas do mundo. Sei Shônagon e Murasaki Shikibu, que viviam na corte japonesa, no século 10, escreveram obras que se tornaram clássicos. Na época em que viveram, suas obras foram consideradas menores, de leitura restrita apenas para mulheres. O que diferenciou estas mulheres foi o domínio da linguagem. Ou seja, através da literatura, expandiram suas mentes e foram capazes de pensar além de seu tempo.
Você acha que as questões de gêneros são importantes para a literatura ou apenas multiplicam as discussões e confundem o leitor?
As discussões podem ser confusas para os homens, que não têm consciência de seus privilégios sociais. O fato de o escritor ser homem facilita automaticamente a sua vida, porque faz parte do gênero dominante. O que acontece hoje é que as mulheres não querem apenas escrever. Também querem ler, publicar, pesquisar, divulgar seu trabalho e de outras mulheres. Esta é uma postura política, que tem como objetivo combater os vícios da sociedade patriarcal. Para dar mais visibilidade ao trabalho de autoria feminina é preciso que as mulheres façam parte da cadeia produtiva da literatura, que haja mais mulheres intelectuais, artistas e cientistas.
No prefácio de "Blasfêmeas" você demonstra que nas antologias de poesia publicadas no Brasil a produção literária de mulheres aparece em minoria. A literatura produzida por mulheres ainda permanece na invisibilidade?
Por causa do trabalho das autoras, este cenário está mudando. As antologias, revistas e eventos têm cada vez mais espaço para as autoras. Creio que a perspectiva de as mulheres serem mais ouvidas e incluídas, tanto na literatura quanto em outras áreas profissionais, é otimista.

Serviço:
"Blasfêmeas Mulheres de Palavra"
Organização Marilia Kubota e Rita Lenira de Freitas Bittencourt
Autoras Adelaide Ivánova, Adriana Zapparoli, Adriane Garcia, Ana Elisa Ribeiro, Ana Mariano, Ana Mello, Ana Peluso, Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Andréia Carvalho Gavita, Angélica Freitas, Bárbara Lia, Célia Musilli, Claudia Manzolillo, Claudia Roquette-Pinto, Concha Rousia, Daniela Delias, Eliana Mara Chiossi, Eliane Marques, Estrela Ruiz Leminski, Etel Frota, Francine Canto, Gabriela Silva, Germana Zanettini, Greta Benitez, Jandira Zanchi, Jane Sprenger Bodnar, Josely Vianna Baptista, Juliana Meira, Jussara Salazar, Katyuscia Carvalho, Karen Debértolis, Laís Chaffe, Leila Guenther, Ligia Regina, Líria Porto, Lisa Alves, Lota Moncada, Lubi Prates, Luci Collin, Lúcia Santos, Mari Quarentei, Maria Rezende, Marília Garcia, Marilia Kubota, Micheliny Verunschk, Miriam Adelman, Monica Martinez, Neysi Oliveira, Nina Rizzi, Nydia Boetti, Priscila Merizzio, Priscila Prado, Regina Bostulim, Roberta Silva, Rose Mendes, Sabrina Lopes, Sandra Santos, Stela Livina Siebenichler, Telma Scherer, Vássia Silveira, Virna Teixeira, Yassu Noguchi e Zoe de Camaris.
Editora Casa Verde
Páginas 216
Quanto R$ 42,90
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