‘‘O destino é uma útil invenção dos homens.’’ Esta frase pode ser encarada como a síntese de ‘‘O Sonho dos Heróis’’, obra do escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914 - 1999). Uma maneira de encarar a vida como mapa previamente traçado, onde todos os acontecimentos são criados para afugentar os fantasmas mais inclassificáveis.
  Publicado originalmente em 1954, o romance acaba de receber uma nova edição pelas mãos da editora Cosac Naify. Considerada, ao lado de ‘‘A Invenção de Morel’’, a obra mais significativa de Bioy Casares, ‘‘O Sonho dos Heróis’’ é uma fábula fantástica sobre o esquecimento, uma viagem mítica em busca do destino.
  ‘‘O Sonho dos Heróis’’ narra a trajetória de Emilio Gauna, um jovem mecânico que vive perambulando pelos bares de Buenos Aires ao lado dos amigos. Na véspera do carnaval de 1927, Gauna ganha uma bolada na corrida de cavalos e resolve torrar toda a grana durante o reinado de momo. Na companhia dos amigos, cumpre uma maratona de três dias inundados de bebida, comida, mulheres e farra.
  No quarto dia, quando volta à rotina do cotidiano, Gauna passa a ser atormentado por uma sensação de amnésia. Simplesmente não consegue se lembrar dos acontecimentos dos três dias de farra. Tem a sensação de ter acontecido algo muito importante, alguma coisa que poderia determinar seu destino. Nessa amnésia, reconhece apenas a presença de uma mulher mascarada e de um possível conflito. Mais nada.
  Apesar do fantasma da amnésia, o jovem segue sua vida. Apaixona-se por uma garota chamada Clara, casa-se com ela e é promovido no emprego. Anos depois, Gauna, justamente às vésperas de outro carnaval, fatura novamente uma bolada com os cavalos. Pensando em passar a limpo o fantasma da amnésia, decide torrar a grana repetindo a maratona de três de farra pelo carnaval.
  Seu objetivo é sair na companhia dos mesmos amigos, realizar o mesmo trajeto, passar pelas mesmas ruas, bares e bailes. Tudo na tentativa de relembrar dos acontecimentos anteriores, de recuperar a lembrança. O que Gauna não sabe é que foi o próprio esquecimento que o impediu de correr na direção de um destino trágico. O esquecimento, no caso, seria justamente sua única possibilidade de sobrevivência.
  Bioy Casares, através de uma narrativa circular povoada de elementos fantásticos, focaliza a ansiedade que os homens sentem quando perdem ou esquecem alguma coisa. Quando aquilo que foi esquecido, ou perdido, adquire valor inferior à própria ansiedade. O personagem principal do romance, ao tocar o esquecimento, consegue se livrar da morte. Ao relembrar, volta para os braços da morte numa espécie de jogo circular e do qual não poderia
fugir.
  Em ‘‘O Sonho dos Heróis’’, as relações entre destino e amnésia estão envolvidas numa teia entre a vida e a morte. Não há evidências na narrativa de Bioy Casares. Sua intenção está muito mais em soprar neblina no enredo do que abrir para as janelas da clareza. A concisão é deixada de lado na intenção de ludibriar o leitor, tirar a objetividade que sustenta seus pés. O misterioso ocupa o lugar do discreto.
  Nascido em Buenos Aires em 1914, Casares começou sua carreira literária ainda na adolescência. Viveu sem grandes preocupações monetárias entre os círculos literários da Argentina e da Europa. Sua produção envolve romances, contos, textos teatrais e ensaios. Em parceria com o escritor Jorge Luis Borges (1899 - 1986), do qual foi grande amigo, publicou sete livros. Uma parceria que fez com que sua literatura permanecesse à sobra da literatura de Borges por um bom tempo.
  No Brasil os livros de Bioy Casares começaram a ser publicados nas décadas de 70 e 80, depois sumiram das livrarias e migraram para os sebos. Agora estão voltando às livrarias pela Cosac Naify. A editora já lançou ‘‘Invenção de Morel’’ (2006) e ‘‘Histórias Fantásticas’’ (2007). Para o próximo ano promete a publicação de ‘‘Diário da Guerra do Porco’’.

Fragmento de ‘O Sonho dos Heróis’ de Adolfo Bioy Casares
  Correu para onde julgava estar a mesa de Gauma. Não a encontrou. Procurou-a precipitadamente, porque temia que o mascarado a seguisse. Quando viu a orquestra no outro extremo se sentiu desorientada. Depois se deu conta: agora tocavam um tango, portanto não se tratava da mesma orquestra. A de jazz estava numa extremidade do salão, a típica na outra. Num instante, Clara se achou atordoada, muito confusa. As duas tacinhas de champanhe que bebeu com Emilio podiam provocar o bem-estar de agora há pouco e talvez também o momento de abandono e segurança; mas não era essa perturbação. Era evidente que estava aterrada; se não queria perder tudo, precisava se dominar. Clara se dirigiu ao bar. Como num delírio, via a si mesma caminhando entre máscaras grotescas.


SERVIÇO
O Sonho dos Heróis
Autor – Adolfo Bioy Casares
Editora – Cosac Naify
Tradução – José Geraldo Couto
Posfácio – Rodrigo Fresán
Páginas – 240
Quanto – R$ 49

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