LEITURA - Fantasmas do delírio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Alguns filhos seguem o mesmo caminho que seus pais. Sobem as mesmas montanhas, mergulham no mesmo rio, comem a mesma comida, acariciam os mesmos cães e caem no mesmo abismo.
O escritor carioca Lima Barreto (1881 - 1922) seguiu caminho semelhante ao pai tipógrafo. Cresceu entre papéis e tinta. Entrou no mundo das palavras através das máquinas de impressão e tornou-se escritor. E também caiu no mesmo abismo que o pai.
Afonso Henriques de Lima Barreto precisou abandonar os estudos após o pai sofrer um surto psicótico e ser internado num manicômio. Para cuidar dos irmãos e sustentar a casa, deixou de lado os livros e passou pelos mais variados empregos até trabalhar como jornalista.
Assim como o pai, Lima Barreto também foi abatido por vários surtos que o levaram a várias temporadas em hospitais psiquiátricos. Em uma dessas temporadas, no Hospital Nacional dos Alienados do Rio de Janeiro, escreveu um diário.
Esses escritos estão em ''Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos'', livro que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify. Além do diário, o volume também traz a novela ''O Cemitério dos Vivos'', que Lima Barreto deixou inacabada e que oferece outra leitura de sua experiência com a loucura, uma leitura ficcional.
O escritor deu entrada no hospital no dia de Natal de 1919. Em seu prontuário, o diagnóstico assinalava ''alcoolismo'' a origem de seus males. Nas primeiras páginas do diário, o autor deixa claro sua total lucidez dos acontecimentos: ''Não me incomodo muito com o Hospício, mas o que me aborrece é a intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado a toda espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há seis anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: delírio.''
''O Cemitério dos Vivos'' narra a jornada de Vicente, um funcionário público que percorre os corredores da frustração da infelicidade até ser confinado num hospício. Trata-se de uma versão romanceada da experiência vivida por Lima Barreto em sua segunda internação, exatamente aquela que registrou em forma de diário.
Lado a lado, ''Diário do Hospício'' e ''O Cemitério dos Vivos'' podem ser encarados como um jogo de espelho. A novela parece um reflexo do diário. Como se o relato do diário olhasse para o espelho da ficção e enxergasse a história de homem a caminho do abismo. Em algum lugar de seus pensamentos esse homem procura, meio a esmo, adiar o momento de pisar no último pedaço de chão antes da queda.
Lima Barreto é um caso particular na literatura brasileira, integrante da primeira geração pós-abolicionista. Mulato, levou uma vida desregrada e repleta de percalços. Sua obra mais famosa, ''Triste Fim de Policarpo Quaresma'', publicada originalmente em 1915, está entre os clássicos da história da literatura brasileira.
Serviço:
- Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos
Autor - Lima Barreto
Organização - Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura
Prefácio - Alfredo Bosi
Editora - Cosac Naify
Páginas - 350 (capa dura)
Quanto - R$ 55
Alves, companheiro de dormitório, tem a mania de trazer a cabeça molhada e os cabelos presos por um lenço fino. Uma noite, despertou gritando: Estão me ateando fogo na cabeça! Dorme com uma venda nos olhos e tem ao lado um verdadeiro guarda-comidas. Mania literária.
Um velho português que tem a vaga semelhança com Francisco José, imperador da Áustria, se crê por isso imperador. Seção Pinel.
Haverá contágio na loucura? Creio que sim. Ambiência do hospital. A imitação como própria à natureza da nossa inteligência. Notar P. imita dois loucos: C. B. que dá para bater portas e cadeiras, dá murros na mesa, etc., Pereira, que imita dar traques. Este é copiado por diversos. As falas com que acompanham os gestos com a boca não se podem repetir: são porcas demais.
(Fragmento de Diário do Hospício, de Lima Barreto)


