Alguns fantasmas são gregários. Preferem permanecer próximos das pessoas a vagar por mansões empoeiradas e abandonadas. Passeiam pelas avenidas dos sonhos, pelas alamedas da memória, pelas travessas da literatura.
O escritor italiano Antonio Tabucchi une esses três caminhos em "Requiem – Uma Alucinação", novela que acaba de ser lançada pela editora Cosac Naify. Um livro que faz a unificação do onírico, da memória e da literatura para mergulhar no universo lusófilo.
A obra narra um sujeito (alterego de Tabucchi) vagando pela cidade de Lisboa num quente domingo de junho. Pelos lugares onde passa, encontra pessoas solitárias dispostas a uma boa conversa. Essas personagens não são apenas gente de carne osso (motoristas de táxis, caseiros, garçons ou cozinheiras), mas também fantasmas do passado (amigos, familiares ou namoradas), que repousam sob sete palmos. Personagens que habitam o universo literário também se fazem presente, como o poeta português Fernando Pessoa.
Uma das peculiaridades da obra está no fato de ser o primeiro livro de Antonio Tabucchi não escrito em sua língua natal, a italiana. Foi diretamente escrito em língua portuguesa. A relação do escritor com a cultura lusitana vem de longa data. Professor de literatura portuguesa, atuou como tradutor de autores como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. Apaixonado por Portugal, fixou residência em Lisboa e adotou a cidadania portuguesa em 2004.
Num apêndice presente em "Requiem", o autor apresenta os motivos que o levaram a escrever em português. Tudo começa com uma doença que abateu seu próprio pai. Devido a uma cirurgia contra o câncer, o pai acabou perdendo da capacidade de fala. Passou então a se comunicar com o filho apenas através da escrita, em bilhetes e anotações. Após o falecimento do pai, Tabucchi teve uma série de sonhos em que ele e o pai, que conhecia apenas a língua italiana, conversavam em português.
Para Tabucchi, "a literatura é capaz de nos mostrar como a faculdade sensorial pode ser um elemento desencadeador da memória". Na narrativa de "Requiem", coloca isso em prática com sucessivas descrições de aromas, sabores, cenários e sons de Lisboa que funcionam como ignição para os fantasmas que habitam a memória e a literatura. No caso, os fantasmas não estão envolvidos num acerto de contas, mas da natural presença deles na vida como qualquer outro elemento que integra a existência de cada ser humano.
Autor de mais de 30 obras, Antonio Tabucchi faz de "Requiem" uma literatura comumente não encontrada em seus romances e novelas. A poética, um dos elementos de sua escrita, permanece de maneira discreta em nome da necessidade de trazer para o onírico as ações mais rotineiras do cotidiano.
O sentimento que percorre o narrador é o de desassossego, em deliberada alusão ao argumento de Fernando Pessoa e da atmosfera da cultura lusitana. Um desassossego que surge da convivência entre homens e fantasmas que desejam permanecer próximos das pessoas. Caminhando pelas ruas dos sonhos, pelas alamedas da memória, pelas avenidas da literatura. Realidades paralelas reunidas numa única saudade.

Serviço:
"Requiem – Uma Alucinação"
Autor – Antonio Tabucchi
Editora – Cosac Naify
Páginas – 128
Quanto - R$ 32,90

Eu estava a escrever e perguntava a mim próprio porque estava a escrever, a minha história era maluca, uma história sem solução, como é que tinha me lembrado de escrever uma história assim? Como é que estava a escrevê-la. E mais: aquele história estava a modificar a minha vida, ia modificá-la, depois de a ter escrito a minha vida não voltaria a ser a mesma. Era o que eu dizia a mim próprio, fechado lá em cima a escrever aquela história maluca, uma história que alguém depois viria a imitar na vida, viria a transpor para o plano real: e eu não o sabia, mas imaginava-o, não sei porque imaginava que não se devem escrever histórias assim como aquela, porque há sempre alguém que imita a ficção, que consegue torná-la verdadeira. E assim foi, efetivamente. Naquele mesmo ano alguém imitou a minha história, ou melhor, a história encarnou-se, transubstanciou-se, mas desta vez a sério, desta vez as figuras que atravessavam aquela história não eram figuras de papel, eram figuras de carne e osso, desta vez o desenvolvimento, a sequência da minha história desenrolava-se dia após dia, eu ia-a seguindo no calendário, até a podia prever. (Fragmento de "Requiem - Uma Alucinação", de Antonio Tabucchi)
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