LEITURA - Fantasmas da solidão
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Uma mochila nas costas e uma estrada sem destino. Uma história como milhares de outras histórias. Sempre com alguém procurando alguma coisa. Sempre com este mesmo alguém fugindo de alguma coisa.
A história do jovem Chris McCandless seria semelhante a de outras milhares de pessoas que, em algum momento da vida decidem colocar uma mochila nas costas e encarar uma estrada sem destino. A diferença estava no fato do jornalista Jon Krakauer ter escrito, em 1993, uma reportagem na revista ''Outsider'' em que narrava trajetória de Chris vagando com uma mochila nas costas nas inóspitas regiões do Alaska.
Seduzido pelo tema, Jon Krakauer investigou com mais profundidade a história e escreveu o livro ''Na Natureza Selvagem'', publicado originalmente anos depois, em 1996. O ator Sean Penn, extasiado após ler a obra, tentou imediatamente transformá-lo em filme. A família do Chris recusou a proposta sem maiores detalhes. Após pensar uma década sobre o assunto, os pais do jovem decidiram colocar nas mãos de Sean Penn a autorização de transformar em filme a trajetória do filho.
''Na Natureza Selvagem'', filme com roteiro e direção de Sean Penn, baseado no livro homônimo de Jon Krakauer, acaba de entrar em exibição nas salas dos cinemas nacionais acompanhado de duas discretas indicações ao Oscar. Aproveitando a situação, a editora Companhia das Letras acaba de reeditar a obra de ''Na Natureza Selvagem'', publicada origalmente 1998. Trata-se de uma história instigante, onde a noção de liberdade é focalizada como uma espécie de divindade que ocupa todo o espaço possível do corpo e da mente de um ser humano, mesmo que todo processo culmine na imagem de uma tragédia.
Nascido numa família norte-americana rica, Chris aprendeu a apreciar o alpinismo com o próprio pai, ainda na infância. Assíduo leitor de Jack London, Henry David Thoreau e Liev Tolstói, durante as férias escolares geralmente colocava uma mochila nas costas e viajava sozinho para lugares onde a natureza pulsava em estado selvagem.
Logo após concluir a universidade com notas invejáveis, encheu carro com livros e roupas. Encheu o tanque e caiu na estrada sem destino premeditado. Ao chegar ao deserto da Califórnia, abandonou o carro, queimou todo dinheiro que possuía, trocou de nome e nunca mais sua família teve notícias de sua existência.
Transformou água em vinho. Adotou o nome de Alex Supertramp. Passou a viver como andarilho, viajando de carona em caminhões e trens de carga. Passou a fazer parte daqueles que vivem à lendária margem do sistema norte-americano. Permanecia durante pouco tempo nas cidades. O tempo suficiente para conseguir algum trabalho momentâneo, conseguir alguns trocados e partir para os lugares mais isolado a natureza pudesse oferecer.
Seus pais colocaram polícia e detetives particulares para localizá-lo, sempre sem resultado. Chris havia sumido do mapa com o cuidado para não deixar, com extrema inteligência, nenhuma pista.
O enigma durou quase três anos até um corpo em decomposição ser encontrado em 1992 na gelada região desabitada do monte McKinley, no Alaska. Caçadores descobriram o corpo dentro de um abrigo abandonado utilizado por aventureiros em tráfego. Ao seu lado havia um diário, rolos de filmes e um punhado de livros de literatura e botânica. Através do diário, a polícia conseguiu reconhecer o corpo e contatar a família.
A investigação concluiu que Chris havia morrido de inanição enquanto enfrentava o desafio de viver com as próprias mãos numa região selvagem e desabitada. Longe de qualquer convívio humano, longe de qualquer tipo de socialização, distante de qualquer comodidade que a civilização consumista podia oferecer.
Para reportar a história, Jon Krakauer, teve acesso ao diário de Chris, reconstituiu os caminhos geográficos percorridos pelo jovem andarilho, colheu depoimentos, entrevistou dezenas de pessoas. Construiu uma grande e bela reportagem da estirpe que não possuem mais espaço em jornais ou revistas.
''Na Natureza Selvagem'' traz um retrato real de uma busca simbólica. A busca, através da solidão, dos elementos mais essências que um homem pode experimentar. O impasse do rompimento entre as complexas regras sociais estabelecidas e a reconstituição de regras extremamente simples, onde o ambiente natural assume a imagem de companheiro, nunca de inimigo. Nas palavras de Chris, rabiscadas nas paredes de um precário abrigo: ''Dois anos ele caminhada pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retornarás, porque o Oeste é melhor. E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o seu falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Dez dias e noites de trens de carga e pegando carona trazem-no ao grande e branco Norte. Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobe a terra para perder-se na natureza.''
Tanto o livro de Kraukauer, quanto o filme de Sean Penn apresentam a imagem de um solitário herói trágico imerso num ascetismo pautado pelos princípios sazonais dos elementos naturais que se estendem para a psique humana.
Segundo os relatos, Chris conseguiu sobreviver durante três meses vivendo do alimento que conseguia com as próprias mãos numa região de ecossistema hostil. Tudo indica que ficou doente por ter comido alguma planta imprópria. Debilitado, foi incapaz de correr atrás de alimento, padecendo lentamente em jejum. As anotações de seu diário trazem lucidez e não delírios de um lunático nesse período crítico: ''Viver deliberadamente: atenção consciente ao básico da vida e uma atenção constante ao meio ambiente imediato e o que lhe diz respeito. Exemplo: um emprego, uma tarefa, um livro, tudo exigindo concentração eficiente. Circunstância não tem valor. É como a gente se relaciona com a situação que tem valor. Todo significado verdadeiro reside na relação pessoal a um fenômeno, o que ele significa para você.''
Paralelamente a história de Chris, em ''Na Natureza Selvagem'' Jon Krakauer vai relatar a história de outros aventureiros solitários que enfrentaram situações limites para cumprir seus desafios. Histórias que invariavelmente terminam em tragédias. Assinala que o jovem buscava algo, um novo eixo para a vida, um eixo que necessariamente não estivesse fundamentado apenas nas relações humanas, mas na relação com a natureza. Algo como trocar a companhia humana pela companhia de plantas e animais selvagens: ''Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribui em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional.''
''Na Natureza Selvagem'' é um retrato de uma solidão idealizada. O desenho de uma liberdade ousada, não conquistada pela força bruta, mas pelo deslocamento da ação para um conceito pouco habitual de vida. Um caminho para o deserto quanto tudo parece aguado.
SERVIÇO
- ''Na Natureza Selvagem'', de Jon Krakauer
Editora - Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares Páginas - 213
Quanto - R$ 36


