Existem traumas que se alojam dentro do cérebro como um urso hibernando na toca. Ninguém sabe ao certo o momento em que o bicho é capaz de despertar, espreguiçar e soltar seu urro. Também existem traumas que se aninham dentro da cabeça como um ovo gestando lentamente algum pássaro. Ninguém sabe o momento em que a casca é capaz de se romper, de libertar algum instinto de vôo.
Alguns contos da escritora norte-americana Julie Orringer apresentam os desenhos desses ovos acomodados no interior da cabeça das personagens. Mais do que revelar os ovos, mostra o momento em que eles se rompem e suas imprevisíveis e aterradoras consequências. No instante do rompimento, nem sempre é provável que apareça um pássaro disposto a voar. Em alguns casos, do interior, surge apenas clara e gema.
''Como respirar debaixo d'água'', primeiro livro de Julie Orringer lançado no Brasil, reúne 11 contos publicados originalmente em revistas literárias americanas. São histórias que retratam crianças e jovens tentando sobreviver após as primeiras porradas mais agudas da existência. Situações limites onde o ovo se instala como uma situação dramática que cria raízes no tempo.
Dois contos presente no volume lançado pela Editora Companhia das Letras, por exemplo, retratam crianças assistindo suas respectivas mães definhando como vítimas do câncer. Crianças que não sabem o que fazer com a experiência que gera um labirinto de percepções. Em ''Peregrinos'' uma garotinha acompanha a mãe, desenganada pela doença, numa visita a um grupo que trabalha com terapias alternativas. Brincando com as crianças do local, a garota conhece o sentido da crueldade humana. Então percebe que a mãe não pode mais protegê-la. Em ''O Que Nós Guardamos'' uma menina acompanha a mãe, fragilizada pelo câncer, num passeio à Disneylândia. Além do passeio, a visita tem como objetivo promover o último encontro entre a mãe e o homem por quem foi apaixonada na adolescência. Vítima do assédio irônico dos filhos do sujeito, a garota tem acesso ao segredo mais íntimo da mãe, um acerto de contas com o passado. O que a garota assiste é justamente sua própria humilhação acompanhada com a tentativa de redenção da mãe.
Outros contos merecem destaque, como ''O Peixe de Isabel'' e ''As Estações da Via-Sacra''. O primeiro traz uma menina que experimenta o trauma de um acidente onde o carro em que estava cai dentro de um lago. Se por um lado ela consegue nadar através da janela do automóvel, a motorista, namorada do seu irmão não consegue a mesma sorte. Tentando se livrar do sentimento de culpa, a menina tenta realizar aulas de mergulho para superar suas dores. O segundo traz outra garotinha tentando se livrar das lembranças do dia em que participou da simbólica crucificação de um menino rejeitado por todos. Com um grupo de crianças, coloca em prática todo o preconceituoso cruel e dissimulado presente nos pais das mesmas crianças.
Nos contos Julie Orringer une, num mesmo relato, as vozes de crianças e a do narrador. Essa junção oferece dois campos de informações onde a realidade externa e a atmosfera interna caminham lado a lado. Mesmo focalizando temas repletos de conflitos, desgraças e culpas, a narrativa opta pela leveza e condição de normalidade das tragédias.
Os ovos estão lá, propensos a explodir a qualquer momento. E quando explodem, apesar de todo estrago que provocam, assinalam igualmente algum tipo de alívio. Isso não significa o fruto do rompimento da casca seja a redenção. Talvez signifique apenas possíveis buracos onde a maioria das pessoas, mais cedo ou mais tarde, desaba num salto mortal sem rede de segurança.

Fragmento do conto ‘‘O que nós guardamos’’
que integra o livro ‘‘Como respirar debaixo
d’água, de Julie Orringer

  Enquanto andavam pela Terra da Fantasia, Helena se manteve junto da mãe, sentindo um fraco cheiro de suor. Ela ainda queria lhe contar o que aconteceu na Montanha Espacial. A mãe, porém, agora parecia estar em outro lugar, inatingível. Já não ajeitava a peruca nem puxava a blusa para disfarçar os pequenos seios postiços. Helena podia ver o orgulho que ela trazia nos ombros magros enquanto observava Brian andando com os filhos e a mulher. Ela andava de maneira tão silenciosa, que era como se estivesse flutuando. Helena imaginou que se olhasse para trás veria um rosto de coisas que sua mãe deixava cair: fragmentos de vidro e de tecido iridescentes, pétalas brancas, cachos de cabelos. Ela parecia mais fiel a si mesma, tendo desistido de fazer as coisas diferentes do que realmente eram.
  Helena sabia que isso só podia ser melhor. Ouvira centenas de vezes na escola, vira escrito em faixas nos corredores. Seja fiel a si mesmo! Confie em você! Mas e se você estivesse morrendo, perdendo a si mesma, pedacinho por pedacinho? Você deveria ser fiel a isso? Helena fizera o possível para agarrar-se às coisas que a mãe perdera. Ela imaginara os órgãos de sua mãe sendo submetidos a uma espécie de reforma, uma espécie de purificação mística, depois da qual voltariam a viver novamente, no corpo de Helena – os seios doentes da mãe se transformariam em seios novos e saudáveis de Helena; os ovários da mãe, renascidos, lançariam estrógenos na corrente sanguínea de Helena.
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Serviço:
- Como respirar debaixo d'água, de Julie Orringer. Editora Companhia das Letras, tradução de Luciano Machado, 254 páginas, R$ 45,00

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