"Estamos na idade em que as mulheres compreendem que nunca terão o direito de envelhecer."
Essa frase nada alentadora está na boca de uma das personagens de "Ithaca Road", novo romance do escritor gaúcho Paulo Scott. Ela sintetiza o sentimento de uma geração frente à necessidade de se tornar adulta e a recusa em abandonar as benesses da juventude. A questão não estaria restrita unicamente às mulheres, mas encontraria nelas sua expressão mais emblemática.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Ithaca Road" narra a trajetória de Narelle, uma mulher prestes a completar 30 anos. Filha de pai europeu e mãe neozelandesa, ela aporta em Sidney, Austrália, para cuidar do restaurante do irmão em processo de falência. Na cidade encontra velhos amigos que a impulsionam a fazer um acerto de contas com o passado.
Narelle sempre teve uma vida fragmentada, sem parada fixa. Sempre pulando de um lugar para outro, de um relacionamento a outro, de uma atividade a outra. Nunca conseguiu se vincular a nada. Embora assista a idade adulta esmurrar sua porta, se agarra ao brilho dos neons da juventude.
Em suas andanças por Sidney, tentando resolver dois problemas lógicos (o que fazer com a falência do restaurante do irmão e com o pedido de casamento do namorado que está no Brasil) conhece Ana, uma garota que vai abalar ainda mais seu oceano de dúvidas e incertezas.
Autista, Ana passa os dias desenhando cenas repetitivas. Representa o contraponto das conturbações de Narelle. Ana procura alguma coisa em que possa se agarrar, alguma estabilidade num mundo onde tudo escapa das mãos. Narelle vive o movimento inverso. Recusa todas as coisas em que pode se agarrar, repulsa toda e qualquer possibilidade de vínculo. É esse jogo que confere o romance de Paulo Scott um sentido sutil.
Num primeiro momento, "Ithaca Road" pode parecer um romance juvenil e frívolo. Uma história de garotas fugindo das complexidades da vida adulta e de suas implicações. No decorrer da narrativa os contornos ganham novas proporções. A vida, até então um quebra-cabeça difícil de ser montado, solicita um sentido diferenciado.
Aquilo que se apresentava sob as vestimentas da afetividade cai por terra e revela sua nudez. Sem os artifícios das aparências, a verdade não se sustenta, não possui dimensão suficiente para se constituir como o mais simples aconchego. A imagem é límpida: a velocidade da fragmentação da juventude não consegue sustentar um prolongado abraço.
"Ithaca Road", escrito dentro da série "Amores Expressos", segue direção diversa do romance anterior de Scott, "Habitante Irreal", que recebeu prêmios e grande número de leitores. A obra retrata outra geração, aquela abatida por desilusões políticas após os caminhos da redemocratização do país.
Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e atualmente vive no Rio de Janeiro. É autor de outros dois romances, "Voláteis" (Objetiva, 2005) e "Habitante Irreal" (Alfaguara, 2011), e do volume de contos "Ainda Orangotantos", publicado originalmente pela Livros do Mal em 2003 e reeditado pela Bertrand do Brasil em 2007. É também autor de quatro livros de poesia: "O Monstro e o Minotauro" (Dulcinéia Catadora, 2011), "A Timidez do Monstro" (Objetiva, 2006), "Senhor Escuridão" (Bertrand Brasil, 2007) e "Histórias Curtas Para Domesticar as Paixões dos Anjos e Atenuar os Sofrimentos dos Monstros" (Sulina, 2001).

Serviço:
"Ithaca Road"
Autor – Paulo Scott
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 112
Quanto – R$ 32

Olha aqui pra mim. Tenho vinte e nove anos. Quatro faculdades iniciadas e abandonadas, uma carreira de modelo que nunca decolou porque, bem, o mundo das passarelas não foi feito exatamente pra uma magricela maori que sofre duma doença de pele sem controle... mil projetos que nunca saem do papel, uma vida afetiva de merda... uma rotina sexual que poderia ser resumida a um botão de ligar e desligar... porque isso de conhecer os caras mais legais e ficar com eles só por uma noite ou duas e nunca mais deixar que cheguem perto não é normal. E daqui a pouco faço trinta... Trinta anos e nem sequer me sinto em condições de ajudar um irmão quando ele resolve precisar de mim pela primeira vez na vida. Trinta anos, e sem casa fixa, contando com a paciência das melhores amigas e dos pais, ocupando quartos extras, salas... Você acha que eu tenho condições logísticas e mentais pra sofrer por alguém? (Fragmento de "Ithaca Road" de Paulo Scott)
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