O vento frio batendo no corpo cansado logo após uma desilusão amorosa. O vazio ocupando o futuro quando a solidão apaga as luzes e fecha as portas. O surpreendente cobrindo de folhas secas as rugas do tempo. A ausência de soluções soltando desejos inconfessáveis sob uma chuva de granito. Para Karen Blixen, tudo isso atende pelo nome de ''destino''.
Para a escritora dinamarquesa, o destino não era apenas tudo aquilo que acontece com homens e mulheres. Era mais. Era aquilo que as pessoas conseguiam narrar sobre experiências vividas. Em outras palavras, o destino só poderia ser considerado destino quando narrado como história. A narrativa seria aquele elemento particular capaz de conceder sentido ao destino.
Desde o começo, o destino e a tradição das narrativas orais estiverem presentes na literatura de Karen Blixen (1885 - 1962). ''Sete Narrativas Góticas'', primeira obra publicada pela escritora quando tinha 49 anos de idade, deixa isso evidente. Recém-lançado pela editora Cosac Naify, o volume reúne sete contos que revelam a grande capacidade de Blixen em trabalhar as palavras como os antigos contadores de histórias.
A própria Blixen afirmava que se considerava muito mais uma contadora de histórias do que uma escritora propriamente dita. Seu interesse estava em trabalhar com narrativas dentro dos próprios contos e novelas, inserir histórias no interior de outras histórias. Em seus textos, as próprias personagens exercem a função de narradores.
Os textos que integram ''Sete Narrativas Góticas'' são banhados por uma sutil atmosfera de mistério. Não os mistérios de outro mundo, mas os mistérios das relações humanas, principalmente as amorosas. Tudo aquilo que não possui uma clara explicação, tudo que caminha na companhia do acaso e das coincidências - a aura de mistério que irriga os tecidos do destino.
Dos sete textos que integram o volume, alguns merecem destaque: ''O Dilúvio em Norderney'', ''O Velho Cavalheiro'' e ''Os Sonhadores''. Os três são constituídos de histórias dentro de histórias onde o tempo possui um papel revelador. Em cada um deles, os personagens chegam a determinada situação em que precisam narrar suas histórias, dar o testemunho sobre as coisas que envolvem seus dramas humanos. Precisam apresentar ao mundo a leitura que possuem das frustrações de suas próprias vidas.
Karen Blixen nasceu Karen Cristence Dinesen. Aos dez anos de idade perdeu o pai, que se matou após receber o diagnóstico de que estava com sífilis. Ao se casar com o barão Blixen, primo de seu pai, Karen se converteu na baronesa Blixen.
Após o casamento, mudou-se com o marido para uma fazenda no Quênia. Logo no primeiro ano de casamento contraiu sífilis do marido, na época uma doença de cura incerta. Realizou vários tratamentos que comprometeram sua saúde pelo resto da vida.
O casamento durou pouco tempo e, após a separação, passou a morar sozinha na fazenda, administrando a plantação de café e a criação de gado no coração da selva africana. Nessa época tem início sua relação amorosa secreta com Denys, um caçador inglês que organiza safáris para milionários europeus. Esta experiência deu origem ao romance ''Fazenda Americana'', transformado em filme pelo cineasta Sidney Pollack com título ''Entre Dois Amores''. Outras suas histórias de Blixen foram adaptadas para o cinema, ''Uma História Imortal'', dirigido por Orson Wells, e ''A Festa de Babette'', filmado por Gabriel Axel.
As histórias de ''Sete Narrativas Góticas'' focalizam basicamente acontecimentos ocorridos na existência de homens e mulheres que vivem no imersos no universo da nobreza. Não são pessoas comuns, mas que de certa forma tornam-se comuns pelas mãos do destino, por assumiram formas mais humanas. Em algumas histórias, Blixen coloca em prática uma leitura masculina das personagens femininas. Sem interferir na rigidez dos papéis sociais, sugere que o destino não se ajusta às normas. O destino apenas coloca vestimentas para logo em seguida se despir, sem explicações. Como um vento frio batendo no corpo cansado logo após uma ilusão amorosa.

Fragmento do conto ''O Velho Cavalheiro'' que integra o livro ''Sete Narrativas Góticas'' de Karen Blixen
Sempre considerei uma tremenda injustiça o fato de que a mulher nunca pôde estar só no mundo. Adão desfrutou de um tempo, pouco importa se breve ou longo, em que pôde vagar por uma terra imaculada e tranquila, entre os animais, em plena posse de sua alma, e a maioria dos homens nasce com uma lembrança desse período. Porém, no instante em que chegou ao mundo, a pobre Eva já encontrou ali seu esposo, aferrado a suas pretensões. Esta é uma queixa que a mulher sempre teve contra o Criador: ela se sente no direito de recuperar para si aquela época do paraíso. Só que, em um destino ainda pior, ao perseguirmos um tempo passado, estamos condenados a agarrá-la pela cauda, pelo lado errado.
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Serviço:
- ''Sete Narrativas Góticas'', de Karen Blixen. Editora Cosac Naify, tradução de Claudio Marcondes, posfácio de Per Johns, 480 páginas, capa dura, R$ 65,00.

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