A dor pode assumir a imagem de uma estação ferroviária numa cidade sem vento. Todos os dias, chegando ou partindo, centenas de pessoas trafegam pela plataforma. Alguns passam, outros permanecem. Alguns não possuem dinheiro suficiente para a passagem, outros perderam o horário do trem, outros desceram do vagão para um café e se esqueceram de voltar. Durante a noite é possível avistar tristes vultos perambulando pela estação. Sombras que esperam o aparecer do sol e o nascer do trem.
Algumas pessoas conheceram cada palmo desta estação. Cada pedra do calçamento. Cada centímetro de banco. Cada palito de fósforo abandonado pelos cantos. Cada papel de bala jogado no chão. Cada mancha na parede. Uma delas foi Frida Kahlo (1907 - 1954), pintora mexicana que percorreu cada mínimo detalhe desta estação. Foi capaz de transformar em arte o sofrimento que a vida colocou em seu corpo. Com força que as mulheres guardam dentro de si, como os ovos guardam suas gemas, gravou sua existência em telas de forte impacto.
Em comemoração ao centenário de seu nascimento, celebrado este mês em todo o mundo, dezenas de eventos reúnem fãs e admiradores de Frida Kahlo. No Brasil, a Editora José Olympio promete, nos próximos meses, colocar nas livrarias, uma nova edição de ''O Diário de Frida Kahlo''. A primeira e única edição brasileira foi lançada em 1995. Rapidamente esgotado, o livro e tornou-se uma referência obrigatória aos admiradores da pintora.
''O Diário de Frida Kahlo'' é uma edição fac-similar do diário íntimo que Frida em seus últimos 10 anos de vida. Além de reprodução coloridas do caderno original, traz texto introdutório do escritor mexicano Carlos Fuentes e comentários detalhados de cada página de Sarah M. Lowe. O livro é um autêntico objeto estético, gráfico e poético onde tudo surge com força numa convulsão de cores.
Nas páginas do diário, Frida escreve sobre temas recorrentes. Seu conturbado amor por Diego Rivera, o apego à causa revolucionária comunista, a valorização dos elementos mitológicos da cultura indígena do México e, de forma intensa, as dores físicas de seu corpo estraçalhado por dentro. São páginas em que a pintora abre o corpo e esfrega as vísceras no papel.
Nascida em 6 de julho de 1907 nos arredores da Cidade de México, Frida foi atacada pela poliomielite aos sete anos de idade. A doença deixou uma de suas pernas atrofiadas. Aos 18 anos, voltando de ônibus de uma aula de pintura, sofreu um violento acidente de trânsito. No acidente, Frida quebrou a coluna vertebral, a clavícula, a pélvis e várias costelas. Sua perna esquerda sofreu onze fraturas, o pé foi totalmente esmagado. O ombro esquerdo deslocou-se para sempre. O corrimão do veículo atravessou seu corpo na região genital. Os tubos de tintas que carregava misturaram-se ao sangue.
A partir do acidente, até sua morte ocorrida 1954, Frida Kahlo atravessou um mar de dores. Passou metade da vida confinada numa cama. Sofreu 21 complicadas cirurgias. Usou oito coletes ortopédicos. Teve a perna esquerda amputada. Todas suas tentativas de gravidez resultaram em doloridos abortos com hemorragias prolongadas. Todo esse sofrimento, processado, está presente tanto em suas telas e nas páginas de seu diário.
Alguns anos após o acidente, Frida conheceu Diogo Rivera (1886 - 1957), um dos grandes pintores mexicanos do século 20. Em pouco tempo estavam casados, dando origem a um dos grandes e conturbados casos do amor contemporâneo. Uma história de amor que deu origem a livros, filmes e exposições. Em seus escritos, Frida considera Diego como ''auxocromo'', o que captura a cor. E considera a si mesma como ''cromóforo'', o que gera a cor.
A pintura de Frida foi vinculada aos surrealistas franceses. O principal teórico do Movimento Surrealista, o poeta André Breton foi o responsável pela divulgação de seus quadros na Europa. Entre suas telas, estão 54 auto-retratos, praticamente um terço de toda sua produção. Sobre esta recorrência, anotou nas páginas em seu diário as seguintes palavras: ''Pinto a mim mesma porque sou sozinha. Sou o assunto que conheço melhor.''

Serviço:
- Livro ''O Diário de Frida Kahlo - Um Auto-Retrato Íntimo'', de Frida Kahlo. Editora José Olympio, introdução de Carlos Fuentes, comentários de Sarah M. Lowe, tradução de Mário Pontes, capa dura, 296 páginas, preço não definido.

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