LEITURA - Esperança e destruição
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Os dois lados da moeda do tempo parece ser o grande tema da literatura do escritor Michael Ondaatje. Passado e presente. Lado a lado, cara e coroa, as duas faces de uma mesma história.
Em seu mais recente romance, ''Divisadero'', lançado no Brasil no final de 2008, Ondaatje trabalha com blocos narrativos fragmentados onde passado e presente são tratados como elementos de um mesmo tempo, de um mesmo espaço. Com uma estrutura tipicamente contemporânea, a figura do narrador é pulverizada. Em lugar de apresentar um único ponto de referência narrativa, apresenta vários deles. Sua intenção não está em fechar as fendas da história, mas está em criar mais fendas, mais vãos, mais vazios.
No final do mês a Companhia das Letras coloca nas livrarias uma nova edição de ''Bandeiras Pálidas'', romance de Ondaatje publicado em 2000 em que a moeda do tempo também ocupa lugar de destaque. O presente assume a forma de um passado exagerado, expandido como um elástico sem limites. Uma força que coloca a vida na rota irregular das dores do destino.
''Bandeiras Pálidas'' conta a história de Anil, uma antropóloga nascida do Sri Lanka que na juventude emigra para o Ocidente. Vivendo entre a Europa e os Estados Unidos, recebe a missão de voltar ao seu país natal como ativista em defesa dos direitos humanos. Sua incumbência é analisar as ossadas das vítimas de massacres da guerra civil.
Michael Ondaatje apresenta como cenário o drama vivido pelo Sri Lanka durante a década de 80, onde duas guerras nascem lado a lado. Uma guerra política e uma guerra étnica. O terror, de ambos os lados, deixa evidente que o silêncio do medo assume a forma cotidiana.
Nesse cenário repleto de sangue, o autor apresenta personagens procurando conviver com as dores individuais e as dores sociais. Uma situação em que as emoções são forjadas pelo passado diante da incapacidade de alteração do presente. Assim, todo e qualquer desenvolvimento pessoal acontece de maneira áspera e tortuosa. Com sutileza e lentidão, Ondaatje apresenta uma história sobre a vida em seu lado destrutivo e, ao mesmo tempo, seu lado revelador.
O próprio Ondaatje nasceu no Sri Lanka em 1943. Ainda criança mudou-se para a Inglaterra e, em seguida, emigrou para o Canadá, país que adotou como pátria. Embora sua produção poética seja extensa, é mais conhecido como romancista. Professor universitário, publicou onze livros de poesia. Escreveu também cinco romances, todos lançados no Brasil: ''Na Pele de Um Leão'' (Editora 34, 1998), ''O Paciente Inglês'' (Editora 34, 1994), ''Buddy Bolden's'' (Companhia das Letras, 2001), ''Divisadero'' (Companhia das Letras, 2008) e ''Bandeiras Pálidas''.
Em ''Bandeiras Pálidas'', Ondaatje desenvolve uma poética interna que segue o ritmo da vida em suas pulsações infinitas. Uma dimensão daquilo que acontece antes que o coração dê sua última diástole. E, após o acontecimento, as vidas que acompanham os últimos batimentos, levam consigo toda a carga sensorial de tal acontecimento. Isso cria elos onde a poética do batimento potencializa todas as reverberações decorrentes de cada pulsação.
Michael Ondaatje consegue atingir a leveza focalizando justamente morte e destruição. Um tipo de leveza que não elimina o impacto da ruína, mas oferece uma postura alimentada por detalhes e sutilezas. No final da narrativa, personagens secundários são deslocados para um espaço primordial da história. Representam uma síntese onde a vida se revela, em maior brilho, quando o homem percebe que sua existência interior está aprisionada por fatores externos.
SERVIÇO
- Bandeiras Pálidas
Autor - Michael Ondaatje
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Paulo Henriques Britto
Páginas - 358
Fragmento de ''Bandeiras Pálidas'' de Michael Ondaatje
A desgraça pessoal pode levar à morte, tanto quanto as desgraças públicas. Ali várias famílias viveram vidas solitárias, talvez começassem a falar sozinhas em voz baixa enquanto um lápis era apontado. Ou então ficavam ouvindo uma rádio transistor, captando um sinal fraco vindo da periferia da área coberta pela antena. Quando as pilhas se descarregavam, às vezes passava-se uma semana inteira sem que ninguém da casa fosse à aldeia, aquele mar de luz elétrica! Pois era um solar construído no tempo dos lampiões, no tempo em que se imaginava só haver a possibilidade de desgraças pessoais. Porém ali eles três estavam na trilha de uma história pública. ''O drama de nosso tempo'', observou o poeta Robert Duncan, ''é todos os homens passarem a ter o mesmo destino.''
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