A capa não diz nada. O nome do autor acrescenta pouca coisa ao nada, tipo ‘‘nunca vi mais gordo’’. A surpresa está no título do livro: ‘‘Ioga Para Quem Não Está Nem A풒. Um tipo de título que empurra o leitor para os braços da curiosidade.
  O leitor pode pensar tratar-se de um livro sobre uma nova vertente de yoga com propostas desencanadas direcionadas a pessoas desesperadamente pós-modernas. Pode também pensar tratar-se de uma obra de auto-ajuda que possui como objetivo enfiar alguma disciplina em corpos que não conseguem abandonar o sofá da sala.
  Na verdade, ‘‘Ioga Para Que Não Está Nem A풒 não é uma coisa nem outra. De autoria do escritor inglês Geoff Dyer, não se encaixa numa classificação objetiva. Trata-se de uma narrativa que mistura realidade e ficção. Trafega entre relato de viagem e romance. Tanto pode ser encarado como um relato de viagem escrito na forma ficcional de romance, quanto um romance que utiliza o relato de viagem como estrutura. Elimina as fronteiras entre realidade e ficção de maneira simples e desprovida de qualquer tipo de pretensão.
  Acima de tudo, é livro bem-humorado. Lançado pela editora Companhia das Letras, ‘‘Ioga Para Quem Não Está Nem A풒 traz as impressões de um turista percorrendo cidades de várias partes do mundo. Não um turista comum, mas um viajante que percorre lugares da maneira mais caótica possível, sempre tentando observar as coisas com um olhar acurado. Um turista que deseja conhecer ‘‘o espaço onírico’’ das cidades. Para isso, sempre carrega um baseado no bolso para entender coisas que não podem ser encontradas em nenhum guia turístico.
  Em cada capítulo, o narrador está numa cidade diferente, em diferentes países. Suas viagens tanto podem ter interesses específicas ou totalmente desprovidas de qualquer objetivo prévio. Fugindo dos lugares freqüentados por turistas padrão, viaja refletindo sobre as coisas que vê, ironizando as contradições mais evidentes e as menos óbvias. Além de realizar uma leitura dos lugares, também compõe um retrato das pessoas que encontra pelo caminho. Figuras, igualmente nada comuns.
  Uma das passagens mais hilária acontece em Amsterdã, cidade que o narrador está visitando na companhia de um grupo de amigos. Após consumir substâncias alucinógenas, a turma parte para uma caminhada pelas ruas da cidade. Uma sucessão de acontecimentos ilógicos transforma o passeio um parque de diversão. Como ninguém consegue se lembrar está o hotel em que estão hospedados, permanecem andando em círculos até se lembrarem que o hotel chama-se Esquecimento.
  Quarentão com atitudes tipicamente juvenis, o narrador é um homem sem lugar. Está sempre de passagem. Sem moradia fixa, sua casa é justamente procurar o uma casa. A constante procura é o seu lugar. Suas relações amorosas e sexuais também são todas passageiras. Embora ‘‘Ioga Para Quem Não Está Nem A풒 seja uma obra divertida e despretensiosa, é possível encontrar alguns elementos que apontam para alguma profundidade. Nos capítulos finais o viajante entra numa espécie de crise por entender que suas andanças escondem um sentido simbólico. Um sentido ligado à procura de um lugar onde ele se sinta bem. Nada mais que seu lugar no mundo.

  Os crepúsculos são um fardo pesado para o turista. Um lugar adquire tamanha reputação de ser ‘‘o lugar certo’’ de onde ver o pôr-do-sol que todos se sentem extremamente obrigados a ir até lá. Phnom Bakheng é um desses lugares. Foi uma caminhada pavorosa. Quando finalmente alcançamos o topo, o morro estava lotado de gente, como uma festa esperando para começar. Chegamos a pensar que haveria DJ, toca-discos, montes de caixas de som. Eram centenas de pessoas, talvez milhares de pessoas, mas não estavam à espera do começo de uma festa – esperavam o pôr-do-sol. A quantidade de japoneses era inacreditável. Todos se borrifavam ou se untavam de repelente contra insetos, porque a quantidade de mosquitos também era inacreditável. Os fotógrafos mais sérios tinham armado suas câmeras nos tripés. Um deles virou-se para a mulher e disse: ‘‘Só faltam quinze minutos’’, como se os dois trabalhassem no centro de controle de uma missão da Nasa. Os demais simplesmente esperavam. Quando viajamos, na verdade, assistir ao pôr-do-sol confere ao dia uma finalidade e um sentido que de outro modo poderiam lhe faltar. Mesmo assim, poucas coisas são menos idiotas do que assistir ao pôr-do-sol. Esperar pelo pôr-do-sol se transforma numa tarefa, num exercício de espera. A inatividade, ficar sem fazer nada, é elevada à posição de um objetivo claramente delimitado. Você fica esperando o pôr-do-sol acontecer, mesmo que ele vá acontecer de qualquer jeito.
(Fragmento de ‘‘Ioga Para Quem Não Está Nem A풒, de Geoff Dyer)

Serviço:
Livro ‘‘Ioga Para Que Não Está Nem A풒, de Geoff Dyer. Editora Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 232 páginas, R$ 41,00.

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