LEITURA - Em busca da alma perdida
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Os romances do escritor norte-americano Paul Auster não costumam passear pelas avenidas da sexualidade. Muito menos por seus corredores. O principal foco está no processo de desintegração que engole o sujeito contemporâneo em sua trajetória existencial. Algo que apenas homens com dezenas de anos nas costas conseguem perceber. Nesse foco, a sexualidade ocuparia um espaço pequeno e discreto.
Em ''Invisível'', seu novo romance lançado pela editora Companhia das Letras, Paul Auster dá uma guinada em seu foco tradicional e se arrisca a dar uma espiada pelos corredores da sexualidade. Para isso, avança contra o puritanismo e coloca em evidência uma relação incestuosa entre dois irmãos.
Escrito em 2009, ''Invisível'' narra a história de Walker, um jovem universitário apaixonado por literatura nos emblemáticos anos de 1967 e 1968. Um rapaz com uma promissora carreira no mundo das letras que, de uma hora para outra, vê sua vida virar de ponta-cabeça e seguir para o brejo.
Tudo começa quando conhece um professor que lhe propõe um trabalho irrecusável: criar uma revista literária. Para isso, oferece total liberdade e milhares de dólares. No dia em que coloca a mão no cheque para o começo do trabalho, Walker assiste o professor matar um menino com uma frieza glacial. Apostando em sua consciência moral, Walker abandona tudo e ergue um plano de punição ao crime. Um plano que mudará sua vida e o levará ao fundo do poço.
Para apresentar a história de Walker, Paul Auster faz uso de uma das grandes características de sua literatura: revelar um amplo leque de histórias que circundam o enredo principal. Para isso utiliza vozes e linguagens distintas que ampliam a teia narrativa e potencializam amplas possibilidades de leitura do romance.
''Invisível'' é formado por fragmentos de uma autobiografia secreta de Walker e por fragmentos de um relato escrito por ele em que ele altera sua biografia da primeira para a terceira pessoa. Tudo criado quando percebe que está próximo da morte, numa espécie de testamento. Também é formado pela narrativa de um amigo de Walter, encarregado de editar seus escritos após sua morte. E ainda há o diário de uma jovem que se apaixona por Walter durante a adolescência.
Nessas várias vozes e narrativas, o papel de escolher o que é verdade e imaginação, loucura ou insanidade, fica nas mãos do leitor. A narrativa criada por Paul Auster é completamente aberta. Está construída para provar que a memória é uma construção particular e não possui nenhum pacto ético com a realidade dos fatos.
Nesse jogo, o mais revelador dos fatos recai sobre a relação incestuosa entre Walter e Gwyn, sua irmã. Paul Auster faz a provocação de transformar tabu em beleza, sem estabelecer nenhum tipo de distinção entre desejo e imaginação. Um jogo onde não interessa se os acontecimentos ocorrem no campo da realidade ou da fantasia, aquilo que interessa é como cada um constrói seu foco particular de visão sobre o desejo.
Não é sem motivo que as duas mais belas passagens de ''Invisível'' focalizam o encontro corporal entre os dois irmãos. A primeira na transição entre infância e a juventude, onde o amor elege a pureza como álibi. A segunda na transição entre a juventude e a idade adulta, onde o amor elege a falta de culpa igualmente como álibi.
''Invisível'', diferentemente dos romances anteriores de Auster, não apresenta o processo de desintegração do homem contemporâneo, mas a sua tentativa de unificação. Uma tentativa que, ironicamente, também caminha igualmente para a construção da invisibilidade do sujeito.
Quando isso começa? Quando é que a ideia que está rodando na cabeça de ambos se manifesta como ação no mundo concreto? Na altura do terceiro drinque, quando Gwyn se inclina para frente e põe seu copo sobre o arremedo de mesa. Você promete a si mesmo que não vai fazer o primeiro gesto, que vai se conter e evitar tocar em Gwyn antes que ela toque em você, e só então você vai saber, fora de qualquer dúvida, que ela quer o que você quer e que você não entendeu mal os desejos de Gwyn. Você está um pouco embriagado, é claro, mas não completamente, não está tão alto que tenha perdido a noção das coisas, e compreende perfeitamente o alcance do que está prestes a fazer. Você e sua irmã não são mais os filhotinhos tateantes e ignorantes que eram na noite da grande experiência, e o que estão propondo agora é uma transgressão monumental, uma coisa sombria e iníqua à luz das leis dos homens e de Deus. Mas você não liga. Esta é a mais pura verdade: você não sente vergonha do que sente.
(Fragmento de Invisível de Paul Auster)
Serviço
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Rubens Figueiredo
Quanto - R$ 47,50 (280 páginas)


