LEITURA - Dores, feridas, cicatrizes e algum raio de sol
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de abril de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
O mal faz estragos aparentemente invisíveis. As feridas que cicatrizam do lado de fora do corpo tranquilizam apenas os olhos. Do lado de dentro, a história é outra. Tudo continua a doer de maneira discreta e entre sombras.
Quando o destino cruza com o mal, um dos dois se contamina. Um fica marcado para sempre. Geralmente o destino, o lado mais vulnerável, leva a pior. Assim, o destino segue mundo afora arrastando suas feridas ao longo da existência.
Em seu novo romance, "Floresta Noturna", o escritor norte-americano Charles Frazier narra uma história onde as feridas se arrastam pelas sombras interiores numa jornada capaz de dar um nó na garganta. Sem pena de si mesmas, as personagens não perdem tempo lambendo as feridas, usam o tempo para sobreviver. E, se possível, sentir algum tipo de calor por menor que se apresente.
Lançado pela editora Alfaguara, "Floresta Noturna" traz a história de Luce, uma mulher que desiste da vida urbana e se isola num antigo e rústico hotel rural desativado. Trabalhando como caseira do lugar situado aos pés da cordilheira dos Apalaches, seu objetivo é uma vida simples na natureza, solitária e contemplativa. Sua constatação é de que o mundo não faz nenhum bem. Só cria estática em seus ouvidos e sufoca aquilo que ela realmente é. E traz o mal nas situações menos prováveis.
Mas sua fuga não é tão simples. É mais profunda. Na realidade, Luce foge das feridas de seu passado. Uma mãe que a abandonou, um pai ausente, abusos diversos e outros machucados. Mas sua fuga é abalada quando recebe do Estado a guarda de seus dois sobrinhos, filhos de sua irmã brutalmente assassinada pelo marido.
Sem nenhum sentimento maternal, Luce se vê cuidando de duas crianças gêmeas completamente traumatizadas. Ao assistirem ao cruel assassinato da mãe pelo padrasto, elas simplesmente se fecham para o mundo. Como método de proteção e sobrevivência, eliminam qualquer tipo de comunicação com o mundo externo.
Exatamente nesse momento surgem dois homens na vida de Luce. Stubblefield, um jovem que volta à região para assumir como herança as terras deixadas pelo avô, um sujeito que está apostando tudo para encontrar um sentido na vida. E Bud, o assassino da irmã que acaba de sair da prisão e acredita que os gêmeos órfãos escondem uma fortuna oculta pela mãe. Um novo inferno começa a ser instalado, propenso a uma nova coleção de feridas, machucados e ataduras.
Charles Frazier é um escritor de grandes espaços naturais. Em sua literatura a natureza possui o mesmo papel dos personagens principais da narrativa. As paisagens chegam a ser parte determinante da humanidade presente em suas histórias. Seu romance "Montanha Gelada" (Companhia das Letras, 1999) é o grande exemplo dessa característica. Um romance onde plantas, animais, estações do ano e, acima de tudo, o horizonte aberto, conferem à existência um sentido simbólico de pele, carne, osso e alma.
"Floresta Noturna" segue caminho diferente. A natureza e as extensas paisagens estão presentes, mas não como personagens principais. Charles Frazier, nascido no interior da Carolina do Norte em 1950, parece seguir direção semelhante àquela de outros escritores norte-americanos (como Cormac McCarthy e Jim Harrison) que conquistaram os leitores com histórias rurais de grandes espaços a passaram a inserir elementos urbanos em seus romances. Principalmente oferecendo atenção às novas roupagens que a violência contemporânea passou a exigir e multiplicar.
Embora seja um romance marcado por feridas geradas no seio do lar e criadas pela violência do mundo, "Floresta Noturna" é uma obra de redenção. A narrativa culmina numa abordagem mais do que interessante nessa direção. Todas as feridas, todo o mal realizado, permanece gravado do lado de dentro, nas sombras interiores de qualquer pessoa. E essa pessoa, enquanto lugar do acontecer do pensamento, é um mundo constituído, devidamente marcado, tatuado pelo passado. A opção mais sensata seria construir um novo mundo em volta dessas pessoas, um novo mundo em volta de suas feridas no lugar do velho. Um mundo externo capaz de acolher e abraçar dores e cicatrizes.
Na narrativa de "Floresta Noturna", feridas e traumas são eternos. Não há a possibilidade do engano da superação. Há apenas a redenção. E isso vale mais do que ouro diante dos olhos daqueles que conseguem ver raios de sol entre as nuvens de dores. Não vale salvação, porque ela simplesmente não existe. Há apenas nuvens de sol, nuvens de chuva e um breve toque.
Serviço:
"Floresta Noturna"
Autor Charles Frazier
Editora Alfaguara
Tradução Cássio de Arantes Leite
Páginas 288
Quanto R$ 39,90


