Ele foi tropicalista antes do tropicalismo, underground antes do underground, contracultural antes da contracultura, marginal antes do marginalismo. Jorge Mautner foi de tudo um pouco. Sua obra literária e musical interligou as razões e as maluquices do caldeirão cultural brasileiro.
Ao completar 75 anos de idade, Jorge Mautner está lançando "Kaos Total", volume que reúne todas as letras de música que escreveu ao longo das décadas, de 1959 a 2014. Apresentados em ordem cronológica, os versos mais clássicos estão nas primeiras letras e composições como "Lágrimas Negras", "Vampiro" e "Maracatu Atômico" (canção que muita gente acredita erroneamente ser de Gilberto Gil).
A grande novidade de "Kaos Total", organizado por João Paulo Reys e Maria Borba, está em trazer uma seção com textos inéditos que englobam poemas e prosas poéticas. Os organizadores tiveram acesso ao baú caótico de Mautner e encontraram alguns tesouros: "Pinturas, livros inéditos e muitas ideias espalhadas em cadernos, margens de jornal, pedaços de papel, cadernetas de telefone ou no verso de notas fiscais." A edição também traz reproduções e algumas pinturas de Jorge, uma faceta pouco conhecida do escritor e compositor do "kaos".
Esses inéditos trazem todas as abordagens características da literatura de Mautner que, mesmo sem a necessidade da preocupação rítmica das letras de música, preservam essa característica. É possível encontrar coisas como: "Meu país distante do passado / me oprime no presente / onde você me deixa agoniado / e minha alma doente demente. / Além de todos os fracassos / você ainda quer mandar nos meus passos? / Uma coisa é pensar na morte cheio de saúde em plena juventude. / Outra coisa é pensar nela na velhice, já bem perto do ataúde."
"Kaos Total" remete à antiga discussão entre letras de música e poesia, uma discussão capaz de deixar carecas os teóricos da literatura brasileira. Na verdade a questão é simples: até que ponto uma letra de música, quando deslocada de sua melodia oral e colocada no papel impresso, se transforma em poesia, em obra literária?
Nessa discussão, as letras de Jorge Mautner revelam dualidade. Algumas delas, quando impressas no papel enquanto poemas, não resistem enquanto literatura. São frágeis. Mas, essas mesmas letras, cantadas, ganham uma potência surpreendente. Outras delas, grafadas no papel enquanto poesia, possuem uma potência reveladora. Mas, esses mesmos poemas, quando cantados como música, sofrem a síndrome da fraqueza.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Kaos Total" deixa transparecer um dos elementos mais constantes das letras de Mautner: a comicidade. O humor é um elemento predominante. A alegria e o riso integram grande parte de seus versos. Seu discurso inspirado no filósofo alemão Frederich Nietzsche (1844 - 1900) encontra na possibilidade da alegria uma solução para a condução existencial.
Jorge Mautner nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1941, filho de imigrantes judeus austríacos que vieram para o Brasil fugindo do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Sua mãe estava grávida de oito meses quando desceu do navio e colocou os pés no porto de Rio de Janeiro. Antes da música, sua primeira paixão foi a literatura. Publicou seu primeiro livro com 21 anos de idade, "Deus da Chuva e da Morte" (Martins Fontes, 1962), que recebeu o Prêmio Jabuti na categoria poesia. Depois publicou mais treze livros, quase todos difíceis de serem encontrados nos dias atuais. Em 2002 a editora Azougue publicou suas obras completas, dividida em três volumes, intitulada "Mitologia do Kaos".
Há quem afirme que Jorge Mautner preconizou, no início da década de 1960, através de viagens filosóficas, alguns dos elementos culturais que seriam realidade nas décadas seguintes. Partindo do exemplo de miscigenação (que ele chama de amálgama) racial e cultural ocorrida no Brasil, teria vislumbrado o que hoje chamamos de globalização e suas implicações. A partir disso tudo, criou um dos versos mais bonitos da música popular brasileira: "Belezas são coisas acesas por dentro. Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento."

Serviço:
"Kaos Total"
Autor – Jorge Mautner
Organização – João Paulo Reys e Maria Borba
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 416
Quanto – R$ 54,90

Eu irado, transformado e transtornado furacão e eu brisa apaixonado acariciando as praias, as plantinhas bem baixas fazendo carinho na terra num ato de amor pedindo perdão * Hoje os dias estão iguais às noites das catedrais. Eu mal respirar posso. E por quê? Ora... os motivos se perdem no abismo retangular do octaedro dos infinitos finitos e dos finitos infinitos. Eu estou de acordo com todos os verbos. Especialmente os nervos dos verbos. Isto é: os verbos nervosos. * eu vi e percebi tão somente agora que a gente está aqui só para ir embora e aí voltar de vez em quando de quando em vez pro coração de alguém como recordação ou então como mistério de uma doce assombração (Poemas inéditos de Jorge Mautner que integram "Kaos Total")
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